—Quem marcou as distancias?

—Elles.

—Então o homem é tolo!—observou Nicoláo.

—Se não fôr mestre no tiro...—-disse o visconde.

A reflexão era justa. Um ignorante da arma cederia todas as vantagens ao perito, collocando-se a tão grande distancia.


Nicoláo d’Almeida passou tranquillamente o restante da noite com os seus amigos. Ás trez da manhã escreveu uma longa carta a seu filho Lopo, incluindo outra para a mãe.

—Se eu morrer, o que não espero, remettam esta carta a meu filho—recommendou elle aos padrinhos.—Tomem nota no que vou dizer-lhes: os minhotos teem crendices e velharias que lhe estão no sangue. Tenho uma capella em uma das quintas onde está o jazigo dos meus antecessores desde 1515. Vossês, se isso fôr exequivel como creio que é, mandem para lá o meu cadaver, mesmo furado por uma bala de sir Richard Grattan.

Os lisboetas pasmavam da fria coragem do provinciano. Os quarenta e trez annos de Nicoláo d’Almeida representavam trinta e quatro com serodias verduras.

Condiziam n’elle os surrisos e desdem juvenil da morte com a frescura e flexibilidade d’aquelles elegantes meneios e delicadas formas. Os padrinhos é que em verdade representavam as pessoas arriscadas ás balas de sir Richard Grattan.