O prognostico era de acceitar; porque a bala batêra, bem que de revez, na sutura sagital, compreendendo, afóra perda de substancia, o pericraneo profundamente.

Pozeram-lhe uma prancheta de fios, ligaram-lhe a fronte, e transportaram-n’o ainda com pulso á carruagem.

No mesmo dia, Nicoláo d’Almeida saiu de Pariz na via-ferrea para Baionna, com direcção a Portugal, depois de pedir aos seus amigos que fizessem o sacrificio de jantar no Hotel des Étrangers, e certificar aos hospedes do dia anterior que o inglez acertava tão bem com as balas como com as injurias.


Appareceu inesperado em casa Nicoláo, quando a esposa lhe estava escrevendo afflictivamente.

Um grito de alegria e logo uma torrente de lagrimas, tambem alegres, entraram de suspeitas o marido.

—Que chorar é esse? que sabias tu de mim?!—perguntou Nicoláo quasi supersticioso.

Referiu-lhe Thomazia que quinze dias antes lhe tinha mandado um sujeito de Caminha perguntar em que hotel de Pariz residia o marido; e que só, poucas horas antes, lhe tinha ido mostrar uma carta de Lisboa apresentada por um rapaz de vinte annos pouco mais ou menos, e que n’esta carta lêra ella as seguintes palavras: «Se o cavalheiro, portador d’esta carta, precisar de auxilio estranho para um acto de brioso desaffrontamento, queira ouvil-o e prestar-lh’o.»

—Que queria isto dizer, meu filho?—exclamava Thomazia.—O nosso Lopo disse-me que o homem vinha desafiar-te. O que eu tenho soffrido, Nicoláo! Estive ha momentos para ir com o Lopo em procura de ti... Graças, meu Deus! Não te succedeu mal nenhum, não?

—Bem vês que estou sadío e escorreito—disse o esposo surrindo com triste semblante mal affectado.