—Mas tu vens melancolico, e de mais a mais quando não tencionavas vir... E o nosso filho? noticias nenhumas?

—Pois ahi tens a minha tristesa, Thomazia... Não vi o filho, e quasi perdi as esperanças de o ver.

Era-lhe força relatar á mulher o desastre acontecido com o infeliz que o insultára, e provavelmente devia ser o inglez vindo a Portugal. Não podia elle rastrear os motivos do insulto nem o interesse com que a desatinada coragem do petulante inglez se pagava. Partiu logo a Caminha para averiguar do sujeito a quem o moço viera recommendado os signaes e pormenores de tal apresentação. Disseram-lhe que o rapaz exprimia custosamente a lingua portuguesa, e não proferira palavra relativa a Nicoláo d’Almeida, tirante as necessarias para lhe saber a residencia. Emburilhou-se-lhe ainda mais a trama das conjecturas, até que principiou a convencer-se de que o moço era algum paladino desorientado por vapores da idade média, ou leituras de romances de cavallarias, o qual, ouvindo contar a Gervasio de Barros a tragedia da sua familia, deliberára em honra da sua dama endireitar um tuerto, que se lhe figurava crime de vingança digna d’elle e da posteridade.

N’estas fluctuações, recebeu uma carta de um dos seus padrinhos de duello, escripta quarenta e oito horas depois que se tinham separado na estação.

Resava assim:

«Dilucidou-se o misterio. Ahi vae cousa que te deve assombrar, e me traz a mim espantado a pensar que ainda se fazem maravilhosos romances n’esta vida pratica e positiva, onde tudo parece correr com enjoativa regularidade.

«Primeiramente, saberás que sir Richard Grattan ainda não acabou; mas não tardará.

«Segundamente, saberás que os padrinhos d’elle acabam de contar aos seus amigos, e estes amigos a outros, e os outros a todo o mundo, uma coisa que não deixa de ser bonita; mas, apesar d’isso, te recommendo que não leias esta carta deante de tua senhora...»

N’este ponto Nicoláo exclamou, surrindo:

—Oh! que é isto?! Desculpa, Thomazia, que eu devo obedecer ao meu amigo.