—Espere, que vae ter occasião de cravar a bala no infame que se finge doido!
N’este conflicto, acercou-se D. Thomazia com o marido. Aproximou-se de Pedro, que recuava, e disse-lhe:
—Olha, Nicoláo, olha... Aqui está teu filho!... Vêl-o vivo? Repara, meu amor. Não é este o que teve o desafio em Pariz comtigo? Não é?...
Nicoláo encarava no rosto de Pedro com penetrativa fixidez; quando, porém, Thomazia lhe espertava a gritos as reminiscencias, elle declinava para sobre ella o olhar torvo, e estremecia como assustado das suas exclamações.
No entretanto, a postura de Pedro de Barros—a fórma exterior, que a interna é indefinivel—significava a ancia de evadir-se a uma situação que lhe demudára o rancor em tortura de uma especie nunca escripta nem imaginada. Abalo de coração parece que não sentia nenhum bom. Na cabeça tumultuava-lhe um torvelinho de idéas que o desvairavam. Aquillo de chamar-se seu pae aquelle homem soava-lhe como uma zombaria, se não era antes sonho ou allucinação de ouvidos. Sentimento filial ou sequer de piedade não lhe suscitava a mãe nenhum. Por maneira, que todos os seus movimentos d’olhos e de espirito, segundo mostrava, era livrar-se do espectaculo, em que talvez elle fosse capaz de ver alguma coisa ridicula para si.
Thomazia, voltando as exclamações do marido, que saíra da sala, para o filho, ia, n’uma explosão de ternura redobrada pela agonia de ver o marido impassivel, lançar os braços ao pescoço de Pedro.
Haveis de crêl-o, mães, que não sabeis dos supplicios de outras; crel-o-heis de melhor mente se já vistes repellidas as que não tiveram hora de vida apartada dos filhos.
Pedro fez pé atraz, quando a mãe lhe dizia:
—Filho da minha alma, ajuda-me a dar vida á razão de teu pae!
O retraimento de Pedro tirou lavaredas de odio aos olhos de Lopo.