Seria sublime, se não fosse triste de contar-se que o filho segundo de Nicoláo d’Almeida, no lanço de furtar-se o irmão aos braços da mãe, tomou para si o corpo d’ella, apertou-a com apaixonado amor, sentiu-a desfallecer, depôl-a sobre um canapé, abeirou-se de Pedro, e disse-lhe acceleradamente:

—Olhe que é mentira quanto ouviu: Aquella senhora não é sua mãe. Maldita seja ella, se alguma hora se lembrar sem vergonha das lagrimas que chorou. Vá... Mentimos-lhe todos. Este homem não é seu pae. Quem? elle! Aquelle santo desgraçado que endoudeceu cuidando que tinha matado um filho!... Mentiram-lhe a elle de Pariz. Fuja, fuja... se lhe parece que é uma enorme covardia o parricidio... Fuja, porque... o senhor matou meus paes... e eu não quero prival-o da expiação do remorso...

Ditas estas palavras, Pedro de Barros foi repulsado rijamente para fóra da porta. Lopo ajoelhou ao pé de sua mãe, e colou-lhe o ouvido ao coração. Latejava. A justiça divina renovava-lhe o sangue para que a expiação se prolongasse a termos de se provar n’aquella mulher que as religiões, promettendo infernos além d’este mundo, foram mais inventivas que Deus.


O meu amigo Antonio Joaquim rematou assim a narrativa:

—Nicoláo d’Almeida não tem memoria nenhuma do reapparecimento do seu adversario de Pariz. D. Thomazia todos os dias lhe conta que o filho esteve ali na casa d’elles. É esperança que ainda não desamparou a pobresinha restaural-o assim. Que illusão! O marido escuta, parece reflectir accentuando com a cabeça as palavras da senhora, e passa de ouvil-a a tão glacial indifferença, que vae para uma janella rufar nas vidraças. Aqui tens o que presenciei na ultima visita que fiz ha oito dias á gehenna d’estes reprobos das alegrias do mundo.

Não te sei dizer onde pára o herdeiro de Gervasio José de Barros, se te interessa sabel-o.

Não; a mim o que mais me convinha era saber dar á tua historia um titulo.

—Eu chamava-lhe o SANGUE.

—O sangue?! qual? o da cabeça de Pedro de Barros?