—Não: o sangue, que tem ares de titulo filosofico e assim com presumpções de these. Porque hasde ter ouvido dizer que um filho conhece seu pae, e o pae seu filho, por um secreto impulso do sangue.
Em confirmação d’este preconceito, que desluz muitas cabeças illustradas, podes vir com argumentos confortativos; por exemplo: os casos de parricidio em que os filhos assassinam os paes com perfeitissimo conhecimento da pessoa filialmente assassinada; o caso vulgar das mães que estrangulam as creancinhas assim que ellas, ao sair-lhes do seio, estendem as mãosinhas para os peitos; o caso em que os filhos, repatriados ricos ao seu paiz donde saíram com o enxoval que custou vigilias e fomes aos paes, sentem-se inclinados a dar razão aos barbaros que matavam os velhos como entes inuteis e incommodos. Todos estes casos provam que o sangue é um engenhoso registro que a Providencia implantou na economia animal, para regulamento dos nossos deveres de familia. Demonstrado isto, corre-te obrigação de mostrar uma coisa, já muito sabida e notoria; e vem a ser que tu e eu e os mais da nossa especie somos os reis da creação; e que os bichos, que estremecem seus filhos e seus paes, são bichos.
—Mas, sem embargo do titulo, qual achas tu que seja a moralidade do romance?
—A moralidade é clara.
—A expiação de Thomazia, não é verdade?
—Homem, eu n’isto de expiações não tenho ainda formado perfeito juizo. Conheço muitas familias que me authorisam a suppôr que a expiação é um castigo da tolice e não do vicio.
—Homem, essa! Vão lá escrever o absurdo n’um livro que tem de melhorar os costumes e os usos...
—E de certo melhoras. Todo o livro é um melhoramento na industria do papel e da tipografia.
—Mas,—tornei eu farejando a moralidade do romance—não posso eu dizer que o pae de Pedro de Barros era...?
—Era o que as nupcias demonstravam, como diz a lei romana. Era Innocencio. O sangue de Pedro vinha a ser o dinheiro de Innocencio. Lá está o axioma que diz: O dinheiro é sangue. Um filho só póde ser filho de quem é seu pae, quando não herda oitenta contos de outro que foi casado com sua mãe.