—Tanto me faz a mim ser roubado por uns como por outros—dizia elle com admiravel lucidez de intelligencia.—Quem tem alguma coisa que perder vae-se pondo ao fresco. Pelos modos, os liberaes do Porto são os pobres sómente; que os ricos fogem todos. Um partido de pobres não ha de ir longe. Vocemecês, se veem todos vestidos n’este gosto, que remedio teem senão vestir-se sem pagar?—argumentava elle com logica de seu uso.—E quem não tem com que pagar, por mais honrado que seja, ha de ir roubar as coisas onde ellas estiverem. Nada... Estou aqui, estou no Douro. Mal por mal, antes me quero de bem com oitenta mil homens e de mal com sete mil e quinhentos...
O capitão não estava para cathequisar correligionarios: a lembrança da Belfastada tolhia-lhe as molas da eloquencia; e o coração, todo embebecido na filha, apenas lhe dava um agro-doce de lagrimas que o bom do Gervasio não podia avaliar n’aquella cojunctura de medo aggravado pelo silencio do militar.
A menina, decorrida meia hora, familiarisou-se com o temeroso aspecto do pae, e já lhe respondia breve ás perguntas carinhosas. Não obstante, quando elle se retirou, receioso de quebrantar a disciplina, Thomazia voltou-se para as senhoras Barros, e disse, com certa tristeza, que seu pae era muito feio. A madrinha reprehendeu-a amorosamente, recommendando-lhe que lhe désse muitos beijos, quando elle tornasse.
A menina obedeceu com repugnancia, respondendo friamente aos afagos do pae, que, desde o dia seguinte, ficou hospedado em casa de Gervasio.
Mais tranquillo e animado, o capitão discursou largamente ácerca das esperanças bem fundadas da victoria das pequenas forças do imperador sobre o desorganisado exercito do infante. Justificou o acerto das operações com a certeza do auxilio de Inglaterra e França, onde diplomaticamente estava vencida a causa de D. Maria, provada a sua legitimidade á posse do throno de D. João VI.
O negociante não percebeu completamente o que vinha a ser a victoria da diplomacia lá fóra, e a guerra tão desegual e mal principiada cá dentro. A juizo d’elle, seria melhor que as armas vencessem primeiro, e a diplomacia depois. Para em summa o dizer, o rico da rua das Cangostas esteve por um nada a perguntar se a diplomacia era alguma rainha que promettia vir com o seu exercito bater os miguelistas de cá, depois de destroçar os de lá. Absteve-se, porém, de revelar esta ignorancia desculpavel em sua vida alheia da terminologia das sciencias de governar, quando o capitão o allumiou dizendo-lhe que a diplomacia, no caso presente, valia mais do que um bom exercito; visto que as nações europeas, convencidas dos direitos da rainha, mandariam dinheiro e tropa engrossar as forças dos liberaes, isentando os cidadãos portuenses de pagarem a quem lhes defendessem as casas, fazendas e vidas.
Sem embargo d’este jacto de luz, Gervasio José enrugou o sceptico nariz, e murmurou:
—Assim será; mas então a diplomacia que mande quanto antes para cá dinheiro e tropa.
Depois da derrota de Souto-Redondo e da desanimação da casa Carbonell, de Londres, o descorçoamento dos liberaes era tal, que aos mais alentados se figurava a urgencia da capitulação, mórmente se o gabinete de Madrid ministrasse a D. Miguel munições e gente. Gervasio José de Barros, com a alma fria de morte e as faces amarellas de terror, perguntava entre colerico e sarcastico ao seu hospede:
—Então, senhor Alves, e a diplomacia? Esse diabo vem ou que faz? Ora, meus amigos, estou na tinta a respeito de diplomacias. O que eu trato é de enfardelar outra vez e arranjar salvo-conducto. Tenha paciencia o senhor Alves. A afilhada vae comigo. Cá não n’a deixo eu; que a não criei para que a apanhe alguma bomba. Eu não quero saber d’isto. O partido liberal é uma sucia de pobretes que querem arranjar-se. Fazem muito bem; mas com o que meus avós ganharam não hão de elles medrar...