O capitão appellava da desacreditada diplomacia para o generoso animo de seu compadre, instando-o a que não désse exemplo do egoismo e da fuga aos seus pares na riqueza e no dever de auxiliarem humanamente a causa de todos os opprimidos da força, da jerarchia e do dinheiro accumulado em homens que não tinham mais alma que as suas burras de ferro.

O negociante, assim que visse chorar a esposa, levava logo o canhão da japona aos olhos. Lagrima da senhora Thomazia caía no coração do marido e ungia-lh’o de caridade e amor ao proximo. Tanto pôde a linguagem do capitão e o enternecimento da sua comadre, que logo d’alli Gervasio foi levar um grande donativo ao thesouro para as despezas da guerra.

Desde este dia, o indifferentista em politica transformou-se n’um dos melhores e mais liberaes defensores do Porto, animando os irresolutos da sua plana dinheirosa a contribuirem para a salvação commum, e assalariando os seus caseiros do Douro a virem e a trazerem comsigo braços para a defeza da liberdade.

Ao avisinhar-se o dia de S. Miguel de 1832, derramou-se no Porto a noticia de um ataque realista ás trincheiras todas, e logo se espalhou a ordem do dia do general sitiante na qual litteralmente se promettia aos soldados saque livre ás casas dos malhados.

Quem o diria? Em dia de S. Miguel, Gervasio de Barros abraçou a mulher, o filho e as irmãs, com olhos enxutos, e saiu para a bateria do Fojo com uma clavina ao hombro e duas pistolas nos bolços interiores d’uma jaqueta de pelles, obrigando os dois irmãos a seguirem-n’o, com estes brados que valem bem a melhor allocução militar de Cezar ou Bonaparte:

—Rapazes! aqui é fazer das tripas coração!

D’ahi a pouco, a esposa e irmãs do bravo saiam para os hospitaes conduzindo trouxas de ligaduras, fios, camisas e lençoes.

Apoz onze horas de combate, Gervasio e seus irmãos voltaram na chusma exultante dos vencedores; mas vinham tristes com o pó da batalha empastado mais nas lagrimas que no suor. O capitão Joaquim Alves Pinto era um dos setenta e sete officiaes prisioneiros e mortos; mas entre os ultimos é que o negociante viu o pae de Thomazia, no Carvalhido.

Proromperam em clamores as senhoras, estreitando aos seios a pequena, sem lhe dizerem que o pae morrêra. A menina chorava e tremia de medo, cuidando que os soldados atacavam a casa; que todos os dias sua madrinha a mandava rezar e pedir á Virgem que as livrasse do saque. Corrido mais d’anno é que Thomazia teve discernimento para entender, sem que lh’o dissessem, que seu pae não era já d’este mundo.

Poucas lagrimas verteu, e essas chorou-as por imitação, vendo molhadas as faces das suas bemfeitoras, quando ella perguntou se o pae tinha morrido.