Adiante das reticencias ponha o leitor uma coisa insignificante chamada «coração». As reticencias podiam dar a misteriosa origem de bastas agonias. Onde ninguem vê nada, estão ladeiras de muitos abismos. Ha ahi muita gente transviada na vereda que leva ao deserto sem horisontes—deserto, onde não enfolha arvore com sombra, nem borbulha fonte que reviva peitos sedentos de vida. Na historia d’essas almas que já aqui levam o letreiro fatal do poeta florentino—almas sem esperança, e, por tanto, sem amor, sem alegria, sem fé, sem Deus—na perdição d’essas, ha um quê indescriptivel, origem fatidicamente inescrutavel. Seria uma palavra? um acto de irreflexão cega? destino? impulso irresistivel da bossa? Não. Foi uma frase cortada, uma expansão sincera afogada pelo pejo, pelo respeito, pelo terror. Foram as reticencias.
Gervasio, posto que transigisse com a insanavel gangrena da geração nova, não abdicava da rigidez de sua authoridade paterna. Avisado do mas... de seu filho, saltou logo furioso a filar a peior das conjecturas, imaginando-o em arranjos de se fazer raptar judicialmente por alguma das seis oppositoras ao rapaz.
Assombrou a cara de ameaças, accendeu os olhos de coriscos, fez dos narizes respiradouro de cólera fumegante, e, esbarrando com o filho n’um corredor, expediu do peito estes gritos:
—Estás enganado, marióla! Casar, casarás tu; mas dinheiro meu não vês uma de x. Arranja mulher que te dê de comer e vestir e casa; que eu... não sou de uns certos paes que mudam de genio quando os filhos desobedientes lhes levam os netos...
—Mas, meu pae—atalhou Innocencio—eu não o entendo... Quem lhe disse que eu...?
—Lérias, meu amigo! não me conte lonas! Você que respondeu a seus tios a respeito de Thomazia? Venha cá... entre aqui dentro n’este quarto da tia Sebastiana, que não quero que a pequena nos escute...
E, dizendo, tirou pelo filho para o quarto de sua irmã, que tinha saido com a outra para o Lausperenne das Almas de Santa Catharina.
No lanço, porém, de empurrar a porta, soou dentro do quarto um ai espavorido.
Era Thomazia.
—Que é isso?!—perguntou Gervasio.—Que medo tiveste, rapariga?!