—E que quer casar com a menina? vem isso lá?—perguntou atiladamente Custodia.—Sim; é preciso saber-se se diz que a ama para o bom fim.

—Pois não ouviste que elle escreve...

—O quê? que escreve?

—Que suspira pela rolinha amada...—observou Thomazia relendo o trecho predilecto.

—Mas isso que diz da rolinha não é cá o que eu quero saber. Deixemo-nos de rolinhas. Falla ahi em casar? Eu não ouvi...

—Casar? sim... eu, casar, não achei cá.

—Pois então, menina—decidiu severamente a velha—se não achou, não responda sem que elle diga pelo claro o que quer. Que eu—modificou a senhora Custodia—estou certa de que o mancebo quer casar; mas, pelo sim, pelo não, quero tudo em pratos limpos. Ora com isso de rôlos e rolinhas não temos feito nada. Eu já não sou d’hoje nem d’hontem. O mundo está cada vez mais diabo, Deus me perdôe. Os meliantes já não eram poucos no meu tempo... que fará agora, que a religião está na espinha! Emfim, depois de ámanhã hei de ir onde a elle, e bem sei o que lhe hei de dizer.

Parecia querer a menina advogar o texto sibillino da carta, allegando que a sua falta de sabedoria a não deixava entender os pontos onde a pessoa lhe propunha o casamento. Correu d’olhos outra vez a carta a vêr se, pelo menos, encontrava a palavra himeneu, erudição que a pratica das comedias lhe havia ministrado, e depois lhe serviu, como se disse, na mentira a Gervasio. O que prova, ao mesmo tempo, que a erudição é boa e má.

Himeneu era vocabulo de que os estilistas de 1844 já se não serviam. Não estava na carta esta velharia tão necessaria a Thomazia, n’um lanço em que o seu espirito podia confundir a ignorancia e ruim suspeita de Custodia. Ficou triste a moça; mas não duvidosa das intenções honestas do seu amador, mormente, se, consoante a fé vacillante da velha, lh’o tinha suggerido S. Gonçalo—intervenção em que a menina não punha a maior confiança.

Como quer que fosse, Custodia, passados dois dias, foi em cata do programmatico noivo, e disse-lhe que fizesse outra carta que se entendesse, e pozesse claro o sentido do namoro.