—E depois dizia—proseguiu a senhora Custodia com juvenil enthusiasmo:

Invejo a sorte do rôlo,

E do pombo a sorte invejo;

Santas leis da natureza,

Não falteis ao meu desejo.

—Ai! que tempo! que tempo!... Tivesse eu cabeça, que bem podia a esta hora ser a dona da botica!... Morria por mim o pobre do Gregorio... Sim, o Gregorio—disse ella baixando o tom da voz á feição de nota explicativa entre-parenthesis—o Gregorio era o boticario, que me botava estes versos e muitos que me hão de lembrar!... Fui tôla... na cabeça me deu... Ai! homens, homens!

Uma lagrima borbulhando no canto interno do olho direito de Custodia da Porciuncula attesta que, n’aquelle momento, se desdobram scenas tristes deante de sua alma. Respeitemos a secreta angustia que ainda póde espremer-lhe uma lagrima do coração mirradinho. Um lance desgraçado de sua vida nos basta para conjecturar que passava por ella o suão infernal de um amor desditoso. Aquella mulher, quarenta e dois annos antes, acceítára a creação de um filho estranho, tendo atirado o seu á roda dos expostos. Quantas agonias de arrependimento e saudade n’aquella lagrima!

—Vamos lá... leia o mais, menina—disse ella com vehemencia limpando os olhos, e sacudindo os braços como se quizesse afugentar as imagens mortificativas.

D. Thomazia foi lendo até final, sem encontrar frase que lhe lisongeasse a percepção. A linguagem era cada vez mais repolhuda, e entremeada de vocabulos exdruxulos e de tal compridez, que a menina partia-os a meio para arejar os bofes. Confessou ella ingenuamente que não tinha estudos para entender os dizeres do sujeito; sem embargo, o coração interpretou aquelles adoraveis enigmas.

—O que elle diz é que me ama; isso lá, diz!—asseverou Thomazia.