—Vinte annos ha que eu me convenci, amigo Antonio. Passados mais alguns, morri. Hoje, o que vês n’este arcaboiço, é uma alma insepulta e penada que se offerece penitente e docil ás tuas injurias. Não espremas, comtudo, a esponja, meu amigo. Sabe que todas as passadas, que dou, vão na vereda escabrosa do meu calvario...
—Devo prevenir-te que não venho disposto para fazer via-sacra—atalhou o meu velho amigo.—Se vaes até ao calvario, faz lá recommendações ao mau ladrão, e diz-lhe que, se florescesse em Portugal, mil oitocentos e trinta e cinco annos depois, seria visconde de Gestas, visto que elle se chamava Gestas. Diz tambem a Dimas, ao bom ladrão, que os do nosso tempo todos são bons como elle, e por isso todos se salvam. E, se quizeres questionar com algum dos apostolos, caso lá os topes, diz-lhes que, presentemente, a gente graúda, á imitação de Christo, considera os bons ladrões dignos do céo; e que, desde o facto algum tanto reparavel de ser perdoado um salteador com prejuizo de terceiro, todos os salteadores «de sobrado alto», como lhes chama a Arte de furtar, são, sobre perdoados, honrados,—o que até certo ponto é christianismo progressivo.
—Então, como te vae?—atalhei eu, cortando a insulsa calumnia apontada ao brioso peito de muitos dos meus melhores amigos.
—Vae-me bem, não vês? Tenho esta grande barriga em que está sepultado o melhor do meu eu subjectivo, e tenho gôta n’este joanete do pé direito. Tu, pelos modos, és alma penada, e eu sou alma despennada, que é peor. Tu ainda sobes ao calvario e respiras ar desafogado, em quanto eu a custo me desatasco da lama. Em summa, estou velho...
—E rico?
—Tambem.
—E feliz?
—Feliz como um cerdo amarrado com uma corrente de ouro. Tu não sabes ainda o que é a felicidade da pobreza, homem! Não soubeste ainda abrir o thesouro em que a Providencia divina te remetteu o arnez impenetravel aos golpes da desgraça...
—Não sei... Terei eu lá em casa isso?!
—Tens, ingrato, se tens!... É o trabalho.