—Ah!
—Esse ah! é alvar. O trabalho é como aquelle anjo que em fórma de pomba pairava sobre a face de Santo Adelino adormecido, para que os raios do sol não lhe acordassem os sentidos e a consciencia da dôr. O trabalho é um absintho celestial, que suavemente embriaga e entorpece as faculdades cognoscitivas atormentadoras do infeliz ocioso. O trabalho é a compensação da pobreza...
—E a riqueza que é? uma calamidade que dispensa a pomba de Santo Adelino ... não é?
—Se alguem ha ahi, até certa idade, verdadeiramente feliz por ella,—o que não creio—a riqueza é um abutre cruelissimo que principia a espicaçar o rico, assim que o espelho, e a dispesia, e as insomnias, e a indifferença das novas, e a consideração das velhas, e o commedimento dos rapazes em sua presença se conjuram para lhe dizer: «envelheces». Aqui tens o verdugo, que dá o laço ahi pelos quarenta e cinco annos, e aperta e arrocha, até aos setenta, até aos oitenta, prolongando-lhe o supplicio, ao apuro de lhe fazer invocar a morte, execrar o ouro, amaldiçoar os homens e blasfemar de Deus.
—E que me dizes do pobre que, na tal idade das insomnias e dispepsias, carece de saude para o trabalho e do trabalho para o pão de seus filhos?...
—Eu te digo...
—Podes responder d’uma assentada a outra pequena duvida: se será mais infeliz o rico enfermo rodeado de filhos fartos, do que o pobre alanciado de suas dôres e dos olhos supplicativos de sua familia?
—Ahi vens tu com o estilo!... Se entras a commover-me, cessa o nosso debate que é todo philosophico e ouro puro de Droz, de Franklin e d’outros moralistas...
—Que moralisavam os desgraçados lá d’entre as cortinas adamascadas dos seus gabinetes, tapetados de alcatifas de tres pêllos... Se elles fossem os desvalidos, quem lhes ensinaria a moral da paciencia?
—Socrates, Philo, Jesus Christo, João Jacques Rousseau...