—Deixe-o comigo.
Á ceia, no aspecto de Innocencio reluzia a inquietação interior. A mesma abstinencia e taciturnidade do jantar. Por mais que a mãe desvellada o desafiasse a fallar, não havia tirar-lhe frase que não fosse desconsolada e sêcca. Levantados da mesa, despediram-se todos d’elle porque Innocencio tinha de madrugar. Thomazia abeirou-se do triste moço, e deu-lhe um abraço, que elle recebeu com estranho estremecimento.
—Manda-me duas melancias da quinta, sim, Innocencio?—disse a menina compungida.
—Pois, sim...—murmurou elle, sentindo cair-lhe sobre o coração um cesto de melancias.
Custodia appareceu tambem para despedir-se, e deu ao moço uns bentinhos da Senhora do Rosario, compendiando n’um discurso apropositado as virtudes da nómina, e fechando a pia allocução com estas palavras:
—Cá ficamos todos a resar pelo menino. Não lhe hade succeder mal nenhum. As orações d’este anginho hão de guardal-o.
E, dizendo, apontava para Thomazinha, que abaixou os olhos.
Innocencio surriu-se, e disse:
—Hei de mandar-lhe as duas melancias que ella pediu.
Declaro que tenho noticia de poucos ditos com tanta graça e tão pouco desvanecimento! Hei de mandar-lhe as duas melancias que ella pediu... Isto é bom, quando a pequena inclinava o pescoço em geito de magoada! E para que vejam que o moço açabarcára n’aquelle só dizer todo o espirito que a natureza dera proporcionalmente á familia, basta saber-se que ninguem atinou com a dolorosa ironia do surriso e das palavras.