Seguiram-se mais duas pitadas de sal virgem e dois esconjuros no mesmo estilo.
Concluida a operação magica, acocorou-se a beata, sorveu duas vezes de simonte, ageitou o regaço, montou as cangalhas, e botou as cartas. Saiam-lhe dispostas as figuras do baralho tão de molde com o desejo que, á terceira vez, a sibilla ganiu um ai de puro jubilo, estremecendo sobre a tripode do capacho em que se amezendára. O rei de oiros, que era Innocencio, calhava sempre de corpo e pensamento com a dama do mesmo naipe, que era Thomazia. Por isso ella ganiu com uma expressão torva, sobre-humana e como de vocalisação infernal; pois não ha duvidar que ha o que quer que seja satanico na cartomancia, quando as mãos escarnadas e roixas das profetisas cruzam sobre o baralho aquellas bençãos e murmuram umas vozes esconjuratorias que a mim, homem d’este seculo e progressista, me já tem feito arripiar as fibras intimas e riçar os cabellos.
Entretanto, estava jantando a menina. A cadeira de Innocencio defrontava com a sua. Reparou ella que o rapaz comia pouco, sem embargo de lhe estar a mãe avitualhando o prato com uns pés de sevado, iguaria dilecta do filho. Deu fé, além d’isso, de que elle lhe esguelhava a miudo os olhos, perfilando o rosto para a não encarar de fito.
—Ámanhã a estas horas onde estarás tu, meu filho?—perguntou a mãe já com tristeza da presentida saudade.
—Estou no rio Douro—respondeu altivamente Innocencio com semblante acabrunhado.
—Estás Entre-ambos-os-rios—disse Gervasio.—Não se esqueçam de lhe metter duas gallinhas no alforge. Deixa-te lá estar oito dias, e não venhas senão depois de bem desfolhadas as vinhas. Manda-me lavar os toneis, e olha se me aproveitam o sarro. Agora não te vás lá pôr a malucar; que tu não me trazes essa cabeça escorreita!...
—Deixa o menino!—atalhou a senhora D. Thomazia.
—O menino!—murmurou desdenhoso o pae—menino de vinte e dois annos!
Innocencio assoprou do fundo peito um suspiro demorado como o de borracha de vento que se esvasa vagarosamente. A menina levantou os olhos ao rosto do moço e surpresou os d’elle a fugirem do encontro.
Findo o repasto, e dadas graças a Deus, Thomazia foi chamar Custodia para vir jantar, e contou-lhe em breve o que passára na mesa. Custodia grasnou um riso protervo de brucha e disse: