Diz-m’o ao cedo e não ao tarde;
O fogo apaga-se ao cedo,
Nemja quando ha muito arde.
Pois é como é, meu serafim do céu... Não nos lembre mais o demonio do homem, e vamos cá ao que serve. A menina deixe-me manobrar, e lá pela sua parte não faça nada; isto é, quando o Innocencio olhar para a senhora D. Thomazinha, olhe tambem; se elle lhe fallar, falle-lhe; se elle não fallar, não falle. E deixe-o andar; que o rapaz ha de ganhar-lhe paixão. Oh se ha de!... eu que lh’o digo...
—Mas eu não gosto d’elle...—interrompeu a moça, fazendo uma visagem de fastio.
—Ora vamos lá, vamos lá; o rapaz não é mal-ageitado; e, de mais d’isso, os homens todos são uns... E a riqueza, menina?—aqui levantou de ponto a voz e arregaçou as palpebras, entumecendo os olhos de emfase—E a riqueza? A menina sabe lá quanto esta gente tem de seu?! Quando eu vim crear a sua mãesinha, ha mais de quarenta annos, ouvi muitas vezes dizer a seu avô que os antigos d’este Gervasio eram judeus que mediam ás razas ouro em pó... Lá me custa, isso é verdade, que a menina se case com homem de raça judia; mas tanto o pae como o avô de Innocencio foram baptisados, e as senhoras essas são boas christãs. O rapaz, quando era pequeno, ainda ás sextas feiras lhe fervia o sangue; mas agora, eu tenho pedido ao Senhor que o faça bom, e hade fazer. Tome tento, menina; ande-me com o lume no olho, não deixe fugir a occasião, que isto de homens, são assim—disse Custodia, fazendo no ar um gatimenho com a mão descarnada.—Casar, e quanto antes, que não vá algum d’aquelles diabos da Praça-Nova dizer ao Innocencio que a menina mandou a carta.
—É verdade!—exclamou Thomazia transida já do receio de se lhe frustar o casamento que, pouco ha, desdenhára.
—Não se assuste... O Innocencio ámanhã vae p’ró Douro ver as vinhas de mando do pae, e só volta d’aqui a oito dias. Em quanto vae e volta ninguem já se lembra de nada.
Estavam a soar as badaladas do meio dia. Custodia disse a Thomazia que a deixasse sósinha, por que assim se fazia necessario.
Foi a velha á cosinha e colheu da saleira um punhado de sal. Fechou-se na agua-furtada, e pulverisou o sal n’um caco. Depois, accendeu uns gravatos de alecrim, e esperou que batesse o meio dia n’outra torre. Ao primeiro toque, tirou uma boa pitada de sal, lançou-a á lavareda do alecrim e ciciou estas palavras debruçada sobre a vaporação da fogueirinha: Eu te salgo, Innocencio; eu te resalgo e torno a resalgar para que não possas comer, dormir, fallar, nem socegar, sem com a Thomasinha casar.