Estamos chegados á ida de Innocencio para as quintas do paiz vinhateiro. Foi elle quem se offereceu. O pae maravilhou-se do insolito zelo vinicola do rapaz. Ora o caso tem explicação e misterio.
A explicação é que dois irmãos da Rosinha, interessados no casamento da irmã, denunciaram a Innocencio que o Costa Guimarães se gabava de ter recebido cartas de Thomazia. Cuidavam elles que este aviso impediria o ir por diante o tal ou qual affecto com que a menina da Praça Nova suspeitava inclinar o coração de Innocencio á sua bella hospeda.
Agora o misterio. Chama-se assim á mingua de o podermos destrinçar pelo claro. O inintelligivel está em que o moço não accusou a orfã ao pae, nem proferiu palavra indicativa das agonias do seu animo.
D’aqui procedeu a deliberação de ir para o Douro, apostado a distrair-se com uns ares filosoficos de pessoa sizuda que houvesse lido as doçuras e allivios que Zimmermann promette aos solitarios. Como quer que fosse, tudo que eu dissesse em honra d’este rapaz seria pouco encarecido, attentos o juizo e generosidade com que elle escondeu do pae as leviandades de Thomazia. Assim se absteve heroicamente de vingar-se d’ella e sair victorioso das suas suspeitas, assentando em honestas bases a repugnancia que lhe fazia tal casamento.
Elle ahi vae Douro acima. Ao dar do meio dia, olhou de soslaio para os alforges onde abundavam as vitualhas e disse de si para comsigo:
—Não tenho vontade de comer!... e vou em jejum!
Depois, concentrando-se em intestino mais fidalgo que o outro relacionado com os alforges, monologou, pondo os olhos nas ribas alcantiladas do Douro:
—Thomazia!... que diabo de feitiço me fizeste!...
E, pendendo a fronte, assentou a barba no seio, e meditou d’este feitio:
—Verdade é que eu nunca lhe disse que lhe tinha amor... Coitada!... ella bem sabia que eu fazia a côrte á Gomes, e nunca me mostrou má cara... Mas, se ella gostasse de mim, não m’o dizia? Dizia, sim... E talvez não dissesse, por que tem lá a sua soberba, e não queria mostrar que me queria bem por eu ser rico. Prompta a casar comigo estava ella, pois não estava?! Estava... eu bem lh’o ouvi dizer a meu pae... Mas então para que escrevia ao outro?... Seria p’ra me metter ferro?... Eu sei cá!