E aqui acudindo-lhe á memoria uns versos que elle tinha decorado dos Ciumes do Bardo, exclamou em voz soturna, bracejando com impeto não destituido de harmonia mimica:

Mulher! que mixto horrendo és tu na terra,

para unir crimes taes com tantas graças?

Que nome te convém? cruel? perjura,

impia, blasfema, algoz, monstro dos monstros?

E calou-se.

Os barqueiros olhavam espantados para elle, e duas passageiras já idosas tomaram-lhe medo.

Innocencio, caindo em si do rapto, quasi se viu ridiculo, e entendeu que o disfarce era assobiar assim a modo de quem se vae divertindo monologando passagens de Castilho e relembrando no assobio trechos de Donizetti que elle conhecia dos realejos.

Como acima se disse, este caso passava ao meio dia em ponto. E á mesma hora, quando as nove badaladas caíam da torre dos Clerigos, a senhora Custodia da Porciuncula, de cocoras á beira da fogueirinha, fazia estalejar os espirros do sal virgem, e murmurava: Eu te salgo, Innocencio; eu te resalgo e torno a resalgar, para que não possas comer, dormir, fallar, nem socegar sem com a Thomazinha casar.

CAPITULO VIII