A menina lobrigou por debaixo da sobrancelha o repleto noivo, cujo coração se recostava regaladamente sobre o coxim do estomago; situação absurda nos termos, e todavia experimentada por todos os amantes felizes depois de um banquete em que se haja comido á portugueza, segundo as formulas de Domingos Rodrigues. Os olhos de Innocencio cheios de graça dardejavam aos de Thomazia um raio obliquo de ternura com o supplemento de um sorriso entre alvar e amoroso.
Gervasio, arrebatado pelo mutuo colloquio de olhos que todos presenciavam, levantou-se, foi ao pé da afilhada, chamou o filho, tomou as dextras de ambos, achegou-as com patriarchal gravidade, e disse:
—Meus filhos, Deus vos abençôe! Sede felizes, como eu tenho sido com vossa mãe.
As lagrimas das trez velhas realçaram a solemnidade das expressões singelissimas de Gervasio, que faziam lembrar os tempos antigos.
Os noivos olhavam para o aspeito jubiloso do velho, como querendo furtar-se á contemplação reciproca de suas pessoas. Depois, deslaçaram as mãos, e escutaram attentos um longo discurso do pae, tendente a demonstrar que os casamentos feitos ao tarde não provavam bem; sendo certo—dizia elle em mais claras frases—que os vicios trazidos do trato do mundo para o seio da familia, quando um homem se casa depois de os ter radicado na alma, estão sempre a dar rebentos e fructos máos.
Custodia foi presente ao mavioso espectaculo. Anciava-lhe o arcaboiço do peito em resfôlegos de alegria. Aquillo era obra d’ella, segundo sua fé na magia do sal virgem lançado ao lume. Se devia ao diabo, se aos santos, o rapido e feliz exito das suas obtestações, não n’o sabia ella decidir. De qualquer das maneiras, sobravam-lhe motivos de vaidade, e não lhe faltava tempo de reconciliar-se com Deus, á imitação dos feiticeiros S. Anastacio e S. Gil de Santarem, dado o caso de interferencia diabolica nos effeitos prodigiosos do sal virgem.
Tiradas licenças e dispensa de banhos, no praso de dois dias, Innocencio José de Barros e Thomazia Alves receberam as bençãos na egreja de S. Nicoláo.
Era no mez d’agosto de 1843. O calor tornava invejavel os amores das aves regorgeados nas sombras das frescas florestas. Innocencio, poeta pouco mais ou menos como todos os seus visinhos, invejou as aves dos bosques do Bom Jesus de Braga. Conhecia elle de nome a sasão das primeiras delicias conjugaes, chamada lua de mel. Consultou as inclinações bucolicas da esposa, e recebeu um alegre consenso á sua idéa. Os velhos condescenderam.
Thomazia sentada em vistosas andilhas cilhadas no largo albardão de uma mula, e Innocencio galhardamente encavalgado sobre um macho de arriaria, sairam caminho de Braga, ao repontar uma tépida manhã, festejada dos passarinhos e perfumada das madresilvas dos valles.