—Que tem?—voltou a velha lastimosa—que tem? Podia levar-te a bréca, meu querido filho! Trez dias sem comer!...
—É a primeira que ouço!—disse D. Florencia, com as mãos juntas sobre o promontorio da região hipogastrica.
—Trez dias!—obtemperou D. Juliana—eu não sei como elle ainda se tem de pé! Vamos p’ra cima, vamos, Innocencinho. Anda comer.
E queriam amparal-o todas para o ajudarem a subir as escaleiras.
—Não é preciso...—disse o rapaz, desviando-as.
Era um gosto de sibarita ver o amante a funccionar com o apparelho da mastigação, desobstruido já o canal onde o amor infeliz costuma empécer como salamandra em cano de chafariz.
Regalavam-se todos a cada naco de paio que rodava no trago de vinho. Não obstante, a mãe, de certo ponto em diante, pedia-lhe que não comesse tanto, que podia dar-lhe na fraqueira. O pae contraditava a esposa atirando-lhe para o prato colheradas de letria e ovos moles, bradando em tom aforistico:
—Come, que a barriga é como um sacco; emquanto couber, deita-se-lhe p’ra dentro.
Findo este repasto de Romeu, quanto era possivel ser-se na rua das Cangostas, Gervasio, que tinha bebido de meias com o filho uma garrafa de 1815, desatou a fallar com enthusiasmo e tal qual eloquencia. O discurso pozera a mira em concluir ali d’uma vez para sempre o tantas vezes mallogrado intento dos desposorios. Depressa chegou ao fito n’estes termos idíllicos e commoventes:
—Rapariga, tu gostas do meu filho, e elle quer-te deveras. P’r’amor de ti é que o Innocencio não comeu nem dormiu, nem parou, em quanto não veio para a tua companhia. É amor verdadeiro. Agora, não admitto réplicas de parte a parte. Casar, que é tempo. Casar, e acabaram-se as historias. Casar, e... tenho dito!