A mãe e as tias penduraram-se no rapaz; e Thomazia, com os braços abertos, esperou a sua vez para o apertar ao seio.
Deixou-se estreitar, affavel e ao mesmo tempo melancolico, o ditoso, com uns tregeitos que seriam de tolo se não fossem antes umas mimalhices que a boa fortuna permitte aos seus beijamins. Innocencio fez um bico de beiços e um pendor de palpebras assim a modo de quem quer chorar as suas penas no seio de quem lh’as deu. N’este em meio, chegou Custodia, e encarando com os dois meninos abraçados e mudos, bradou, batendo as mãos:
—Está feito o milagre! ouviram-me os meus santos! Eu que disse, senhoras?—continuou ella virando-se para a mãe e tias de Innocencio—eu não disse ás minhas amas que elles se queriam como um casal de pombinhos? Ora ahi os teem a rever-se um no outro como dois serafins! benza-os Deus, que tão galantes são! Tomára eu não acabar sem ver os filhinhos d’estas duas creaturas! Vejam, vejam, como ella se faz vermelha!...
—Está bom, está bom, Custodia—disse o alegre Gervasio—vae dizer á cosinheira que ponha lá que comer na mesa, que o menino está a cair de fraco.
—Bem se te vê na cara, meu filho—confirmou a mãe.—Comeste pouco por lá?
—Ha trez dias que não come—explicou Gervasio.
—Jesus, santo nome de Jesus!—conclamaram as trez senhoras, benzendo-se.—Ha trez dias!...
—Ó meu Innocencinho!—lamuriou D. Thomazia de Barros, saltando-lhe outra vez ao pescoço.—Estiveste trez dias sem comer!?
O rapaz surriu-se tristemente e murmurou:
—Isso que tem?...