—No rio? houve desastre?
—Não, senhor... Quero dizer que me vi tão afflicto, tão apoquentado, que...
—Que tiveste, rapaz?—atalhou o velho alvoroçado.—Tu estás amarello, meu filho!... Tens os olhos molhados!... Que é isso?...
—Meu pae!...—murmurou Innocencio, apanhando a cabeça com as palmas das mãos.—Eu desconfio que me fizeram feitiçaria... Não pude comer nem dormir trez dias!...
—Como assim?...—acudiu Gervasio despegando-lhe as mãos da testa—então que sentes, menino?
—Sinto-me doudo d’esta cabeça... A minha razão diz-me que não ame Thomazia, e eu não pude esquecel-a uma hora, um minuto, em quanto andei por lá...
—Então cuidas tu que isso é bruxedo?—atalhou o pae com ridentissimo carão.—Ó filho, isso não é o que tu cuidas; é um mal proprio da natureza que péga em todos. Qual feitiçaria, nem qual carapuça! Nunca os males sejam maiores... Se gostas d’ella, fazes o que deves; tambem ella morre por ti. Ainda não ha meia hora que Thomazinha me veiu aqui trazer esta carta para eu t’a mandar ámanhã dentro da minha pelo correio. Aqui a tens, olha, lê-a e verás que a mocinha estava cá como tu por lá. Esteve ahi a chorar como vides, e a dizer que tu, se a não querias, dissesses isso e não andasses a desacredital-a.
—Eu não a desacredito!—exclamou Innocencio indignado com razão.—Pois eu que disse?...
—Ora vamos lá... vamos lá... Tu disseste que o outro do cavallo andava por ahi a espinotar pela rua p’r amor d’ella, e que...
Foi interrompido Gervasio pela estrondosa descida da familia que recebêra do criado a nova de estar Innocencio no escriptorio.