Ao quebrar da calma, desceram para Braga, e na madrugada seguinte jornadearam para Monção.
Detiveram-se alguns dias em casa das irmãs do capitão Alves, e voltaram por Caminha.
Recorde-se o leitor de ter dito Nicoláo d’Almeida ao meu amigo Antonio Joaquim, no theatro de S. João em 1845, que, dois annos antes, vira em Caminha e nunca mais podéra esquecer a formosa mulher que outra vez topára agora no camarote da 3.ª ordem.
Foi então que elle a viu, e por tal maneira se lhe areou o juizo ao vêl-a que fez azoar Innocencio.
Era, n’aquelle tempo, Nicoláo orfão, gentil, rico, fidalgo de solar conhecido, estudante do segundo anno juridico. Tinha desoito annos. Estroinava sem peias nem contradicção de parentes. Sobravam-lhe usurarios valedores nas prodigalidades. Tinha tontices galantes, sendo a menos perigosa querer finar-se de amores por alguma linda mulher que não tinha ainda topado. Isto me contava elle em Coimbra como hoje em dia um academico de dezoito annos vos conta gravemente as suas meditações ácerca do influxo de Kant e Hegel na historia psicologica do espirito humano, ou os projectos com que giza salvar Portugal da divida externa, quando for chamado aos conselhos da corôa. Os tolos de 1845 eram menos damninhos.
Grávido d’este pensamento suicida, Nicoláo d’Almeida quando viu a loira Thomazia, nas praias de Caminha, ao entardecer, com os olhos enamorados do sol que se atufava nas aguas escamosas de revérberos argentinos, cuidou que era aquella a mulher predestinada. Visinhou-se d’ella com impeto de pessoa empurrada pelos fados, e remirou-a tão em cheio e de vagar como se o marido não representasse coisa nenhuma ao lado da creatura fatidica, enviada expressamente a Caminha para realisação do seu sonho.
Innocencio encarou n’elle avincando a testa ao mesmo passo que a esposa, perfilando o rosto, segredou ao marido:
—Que está a olhar p’ra mim o diabo do homem!...
Deu-lhe o braço o carrancudo esposo e foi para a estalagem, murmurando:
—Aquelle asno olhava-te como se te conhecesse ha muito.