—Deixe dar duas palhas ao macho que está aqui affeito!—bradava o arrieiro.

Innocencio teimava a esporeal-o com furia, e elle a escoucear, até que de repellão se remessou a galope pela ladeira acima, cedendo a victoria ao rei da creação. Thomazia deteve-se á espera que a mula, mais ditosa, mastigasse a palha. Lá no topo da encosta fez Innocencio parar o macho, voltou-se sobre a anca e bradou:

—Então? vens ou ficas?

A senhora, para requintar em belleza, purperejára-se de pejo, por que os rapazes, até certo ponto desculpaveis, riam sem disfarce das cargas de espora que o das Cangostas barbaramente inflingira á victima indirecta do seu ciume. Além d’estes incentivos, um ou dois do grupo conheciam Thomazia e lembravam-se da carta lida na Praça-nova. Dado que a gentileza da dama se fizesse respeitar e até perdoar os desatinos da grammatica, nem assim vingou abafar os frouxos de riso exemplificados pelas chalaças de Costa Guimarães que passava de estupido a torpe, quando a violencia lhe aperfeiçoava a indole.

Estão bem entendidos os amúos dos conjuges, e mal justificados os assomos do agastadiço Innocencio.

Os velhos sentiram logo a desavença das duas almas que tão amorosas tinham saído. Entrou em averiguações Gervasio. O filho nada esclareceu, porque reconhecia que não tinha bem ajuizados motivos de queixa. Mas a esposa, assim que poude estar sósinha com Custodia, prorompeu em soluçantes vozes:

—Este homem não se póde aturar! Fez-me de fel e vinagre desde Caminha até ao largo da Agua-Ardente, porque viu um homem a olhar para mim, e encontrou o tal maroto do Guimarães na «Ponte da Pedra...»

—Má raios o partam!—atalhou a benigna Custodia da Porciuncula.

—Ora vê tu que culpa tenho eu de lá estar o homem em Caminha!... Pois fez-me desesperar e arrepender mais de cem vezes de ter casado com elle!...

—Ora menina, ora menina!—acudiu-a velha—Não diga isso, que me parece doidinha! Seu homem zela-a, porque o amor é assim. E a minha linda não fazia o mesmo, se visse as outras mulheres a olhar p’ra elle?