Não esquadrinhou nada n’aquella noite desvelada a litografar na alma o retrato da peregrina incognita.

No dia seguinte quando voltou a bordejar os áditos da estalagem, soube que os passageiros, ao luzir da aurora, tinham saído em direcção ao Porto, d’onde eram. Nicoláo d’Almeida ainda mandou pôr a cella no cavallo e vestir o lacaio no proposito de os seguir; mas quebrantado pela sobreexcitação cerebral da noite, sentiu-se desmaiar de forças, e quedou-se marasmado em casa a cogitar e a remergulhar o espirito na visão resplendente d’aquelle rosto com que Deus quizera experimentar a continencia dos seus santos.

Se os destinos humanos não estivessem prescriptos lá em cima, ou lá em baixo, ou onde quer que seja, a intervenção do fidalgo de Caminha n’esta moralissima historia acabaria aqui, ou nunca deveria ter principiado, á vista de tão chôcho e trivial remate.

Ora hão de ver que relampago fulgurava das nubelosidades do porvir e alumiava confusamente os presagios da desconcertada fantasia de Nicoláo d’Almeida!


Os esposos chegaram ao Porto arrufados, doze dias depois que tinham saído a chotarem jubilosamente pela rua de Santa Catharina acima.

Os agastamentos principiados em Caminha aggravaram-se na «Ponte da Pedra», onde Innocencio viu o João José da Costa Guimarães esturdiando com outros rapazes da sua laía debaixo dos sobreiros, não já com a innocencia arcadica dos que comiam a fructa d’aquellas arvores, mas antes com o desplante de moços que tinham vindo ali arejar as cabeças aquecidas na taverna fronteira.

João José, quando divisou Thomazia, fez da cara uma comprida careta, esbugalhou os olhos, torceu o pescoço e disse aos parceiros:

—Olha! olha!

Olharam todos. Innocencio fumegante de indiscreta raiva dava de esporas no macho, que reagia a coices, por estar vesado a desougar-se n’aquella estação.