Cabe aqui dar conta de uma tempestade que se está conglobando sobre a mal-estreada ventura d’estes esposos. Muita gente cuida que as grandes desgraças procedem de profundas causas, e não attentam que basta um sopro de odio para accender infernos. Ha infortunios surdidos de repente, como as viboras que sob-rojam por entre flores: e para maior assombro é isso quando a vida é de rosas; que, nos casamentos mal sorteados, havemos de suppor que a serpente já vem escondida na estola do sacerdote, cujas palavras soam o terrivel unidos para sempre.
A Rosinha da Praça-Nova, convicta de ser amada, porque as cartas de Innocencio lh’o asseguravam, andou muito lampeira a dizer ás suas amigas que o Barros das Cangostas casava com ella.
A noticia vulgarisou-se levada pela inveja, parelha inseparavel da fama. O pae de Rosa já recebia os emboras dos seus amigos, e esquadinhava noticias para formar um calculo aproximado da «fortuna» de Gervasio. Sessenta contos era o computo mais seguido na praça; outros faziam-lhe cem, calculando que elle tinha uma reserva de quarenta em sonante. Alguns, inventariando os haveres de Luiz de Pinhel, tio materno de Innocencio, avultavam a «fortuna» a seiscentos contos. Desfaziam outros n’este calculo, affirmando que Luiz de Pinhel tinha filhos illegitimos de differentes negras suas escravas. Sem embargo, e independente de heranças, o dote do promettido noivo de Rosinha era um dos mais abalisados no Porto d’aquelle tempo.
O filho de Gervasio não se despedira de Rosa, quando saiu para o Douro. Foi caso discutido na familia da Praça-Nova, sem comtudo insinuar receios na menina. Mostrava ella a seu pae a ultima carta do namoro. O pae lia solemnemente á mulher os periodos da missiva; a mulher com visos de entendida no valor das palavras, esclarecia as passagens obscuras; e harmonicamente decidiam que o casamento era negocio feito. Negocio era a palavra chã e ajustada a todas as situações graves da vida.
Sem impedimento d’este accordo, Rosa, ao fim de trez dias, escreveu a Innocencio uma carta de queixumes, notada pelo irmão, que teimava em que a palavra apaixonada se escrevia com ch e não com x. A menina, irritada pela obstinação do mano, foi ao seu quarto, e trouxe triumphalmente uma brochura em punho, e mostrou a pag. 7 do Homem dos trez calções, de Paulo de Kock a victoria da sua orthografia.
A carta adressada a Provesende foi recambiada para o Porto, e entregue a Innocencio, quando elle se recolheu do Minho.
Emquanto Thomazia expandia a sua tristeza no confidente seio de Custodia, lia o marido a carta de Rosa.
Nunca tão amoravel e terna lhe tinha escripto a saudosa menina. As frases queixosas reviam meiguice e tristesa condescendente. «Diverte-te, meu bem, mas não te esqueças da tua Rosa»—escrevia ella e proseguia: «Espero ainda ir ao sitio onde estás, meu amor encantador; e lembrar-te o tempo em que eu por ti suspirava, de ti ausente, e tão apaixonada» (Esta palavra foi a da questão, decidida pelo traductor do Homem dos trez calções).
Periodos sentimentaes, á proporção d’aquelle, pesaram por tal sorte no coração de Innocencio, que as lagrimas lhe envidraçaram a vista. Atirou-se para uma cadeira, fechou os punhos, e tapou os olhos. Sacudiu a dor, levantando-se de salto, amarfanhou a carta, e metteu-a no bolso da judia, por que ouvira o ranger das botinhas da esposa.