—Vou. Posso desde já dizer ao meu editor que descobri a idéa numero onze? E que a descobri na transparencia da tua cabeça?
—Isso não. Se por ahi desconfiam que tenho terço de idéa, minam-me os creditos. Deixa-me fruir a reputação que me faz insuspeito á confiança de pessoas com quem tenho negocios. A besta é coisa superiormente importante, desde que S. João, o apocaliptico, viu uma corpulentissima. Todas as bestas, mais ou menos aparentadas com a do vidente de Pathmos, trazem boa sina comsigo. Pelo menos, emquanto eu tiver que vender e comprar faz-me a mercê de me não vilipendiar com a denuncia de que eu te dei uma idéa... Lembra-te dos desgostos que me iam dando as tuas VINTE HORAS DE LITEIRA. Foi preciso que o teu livro esquecesse para que eu recobrasse os creditos fallidos.
—E esqueceu já o meu livro?!
—Ora!... se esqueceu!... quando eu voltei ao Porto, quinze dias depois da publicação, apenas se lembrava d’elle consternadamente a empreza editora. Vamos jantar.
O repasto do hotel Francfort foi leve.
Quem come francezmente cria alma; corpo é que não.
Aquelle magro môlho em que boiam cascas farináceas não entulha os ductos da intellectualidade. A viscera vital por excellencia não escoiceia o visinho de cima como succede nos casos em que o esôfago arfa sacudido pelo estomago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo chilo se está elaborando.
Respeitado nos seus altos camarins e não azoado com o estridor dos dentes e das funcções digestivas, o espirito exercita-se em pleno gôso de suas faculdades.
A alimentação franceza póde levar á dispepsia, sem duvida; porém, o que no homem ha digno da maior estima e merecedor de toda a cautela, a alma, essa asseguro eu que não tem senão um passo a dar entre a cosinha franceza e a idealisação germanica. Se os jejuns espiritavam os cenobitas de Isthria até entreverem Deus por um postigo do céo, as aguas aromaticas das caçoulas do «hotel Francfort» subtilisaram o espirito do meu amigo Antonio Joaquim a uns altos devaneamentos, que me não pareciam d’elle nem dos seus annos.
Fallava-me da nossa mocidade como quem perdêra com ella muitas coisas bellas e irreparaveis. Elle, que não tinha perdido senão o direito que todo o homem tem a fazer uma dada somma de tolices! Elle que, entre o berço e o thalamo, apenas teve tempo de crescer, engrossar e depôr no regaço de sua esposa um coração cheio de casta ignorancia das coisas boas e más d’este mundo!...