—Logo vi...—soluçou a senhora—logo vi que a tua raiva era por estar no theatro aquelle maldito...

—E acha você que é só por isso, eim? Acha que não tenho mais nada que lhe bote na cara, a respeito do tal tratante? Faz de mim tão tolo que estou aqui assim zangado porque elle olhou para a senhora!... Ora, minha amiga, outra vida!... Sabe que mais?—e destampou a voz de subito como trovão inesperado—Sei tudo! sei tudo, ouviu? Sei tudo e sei tudo!

Aterrou-se Thomazia. Tremiam-lhe os dentes e os labios.

Os berros do homem estrondearam na casa. Gervasio saltou da cama, embrulhou-se n’um capote de trez cabeções, e veio bater á porta do quarto do filho, a tempo que elle bramia:

—Escrevia-lhe a elle você e fazia-me a côrte a mim ao mesmo tempo! Essa acção é de mulher sem honra!

—Quem é?—disse elle, suspendendo a apostrofe, e attentando a orelha á porta em que batia o pae.

—Sou eu—disse Gervasio—vem aqui fóra.

Innocencio saiu. O pae levou-o para uma saleta na extrema do segundo andar, e disse-lhe severamente:

—Portaste-te como um gallego. Estás ahi a berrar com tua mulher, depois de eu te ter pedido que não fizesses caso da intriga. Isso é feitio, rapaz? É assim que tu começas a tratar tua consorte? Que começos de vida levas! Quando isto é no primeiro mez, que será d’aqui a seis! Mal haja a hora em que esta rapariga veio para minha casa?...

Gervasio disse isto com dôr, e anciado do peito.