—Por que?—murmurou ella com humildade.

—A senhora sabe-o; não me faça perguntas.

Calou-se alguns segundos e voltou com impetuosa vehemencia:

—O que a senhora quiz foi ser rica, não é assim?

—Eu...

—Sim. Não me tinha amor nenhum; mentiu-me, andou a imposturar para me illudir...

—Não digas isso, Innocencio...—redarguiu ella energicamente; mas a consciencia esfriou-lhe logo a reacção.

—Então isto é mentira? A carta que você me escrevia para o Douro não era sua?

Thomazia abaixou o rosto e chorou. Em situações analogas, mulheres sem defeza, choram. As lagrimas são supplicas n’estes lances. Se os juizes teem boa alma e a virtude da delicadeza, rasgam o processo. Se são da indole rustica do filho de Gervasio, enfurecem-se em dobro e vociferam. Para esta ralé de homens faz-se mister que a mulher, bem que culpada, relucte e rebata as accusações, simulando arrogante innocencia. Se não ganhar o pleito, perde-o sem humilhar-se.

—Responda a isto!—bradou Innocencio.—A carta era sua... ou foi por engano que m’a quiz mandar?... Sim... pergunto... póde ser que a tal cartinha fosse para o Costa Guimarães.