Ao nascer do sol, Gervasio José de Barros já andava na rua. Entrou no mosteiro de Santa Clara, deteve-se meia hora a conversar com a prelada, foi d’ali ao paço episcopal, e voltou com um papel assignado pelo bispo.
Chegou a casa esbaforido. Mandou chamar ao escriptorio Custodia da Porciuncula, e disse-lhe com semblante carregado:
—Custodia, não podes estar mais tempo em minha casa. Escuso de te dizer as razões que tenho para te despedir. Não me serves...
—Então...—exclamou Custodia, erguendo as mãos em affligidissima postura—assim se põe na rua uma velhinha de sessenta e nove annos!...
—Não vaes p’rá rua, mulher. Venho de te arranjar um encôsto no convento de Santa Clara, onde te mandarei dar todos os mezes o necessario para o teu passadio. Vaes para onde possas rezar e ouvir muitas missas á tua vontade. Cá em casa é que me não serves.
—E a minha menina!—tornou Custodia, lavada em lagrimas—a minha filhinha do meu coração... heide deixal-a!... ai! que eu morro! ai! que eu morro!
—Não faças gritarias, mulher!—atalhou Gervasio, sustando o alarido da consternada velha.—A tua menina ia por bom caminho, se tu continuasses a levar e trazer cartinhas de sujeitos que tu lá sabes...
—Eu!... seja pelas almas!—interrompeu ella.
—Está bom, está bom—concluiu o negociante—não quero plemicas! Vae lá tratar de arranjar a tua caixa, que d’aqui a uma hora has de ir para o convento; e, se não quizeres ir com a boa esmola que te dou, procura a tua vida lá por onde te fizer conta.
Custodia pediu quasi ajoelhada que a deixasse despedir da senhora D. Thomazia.