Evitava-o com invencivel repugnancia a mulher, se elle parecia querer reconciliar-se. Sumia-se na alcova de Custodia, e desafogava n’um alto chôro, que a sogra não ousava increpar-lhe. Como Gervasio lhe dissesse que a velha, a não ter morrido, gosaria um descançado fim de vida no mosteiro de Santa Clara, a opprimida senhora mandou-lhe pedir pela tia Florencia que lhe désse no convento o encôsto destinado á criada.
O negociante injuriou a irmã portadora do recado, e foi, passado pouco tempo, affagar Thomazia, com promessas de lhe amaciar as rudesas do genio de seu filho: promessas que ella recebeu com desdem significativo de que preferia ser aborrecida.
E não havia congraçarem-se os esposos. Á mesa não se encontravam com olhos nem palavras. Innocencio demorava-se em casa o escasso tempo de comer; e de noite recolhia-se depois que os botequins o despediam, ou a intemperie do tempo o necessitava de abrigo. O espaçoso leito conjugal, desde a morte de Custodia, nunca mais deu o licito calôr áquellas duas almas em commum. Thomazia senhoreou-se do seu antigo catre, armando-o na alcova escura contigua á saleta do seu aposento. O marido vira-o feito, e não lh’o contrariára. Quando as irmãs lhe deram assombradas a noticia, Gervasio não impediu, não se interpoz, cuidando que a duplicidade das camas não significava coisa de vulto. As duas solteiras benziam-se, chamando «modernismo» á separação, e protestando com virginal enthusiasmo que, sendo casadas, jámais consentiriam semelhante moda.
Por parte de Innocencio a reconciliação não foi solicitada. Minguava-lhe amor para arrepender-se, e generosidade para perdoar a venial aleivosia das caricias ante-nupciaes. Assim mesmo, deante da familia esforçava-se em parecer senão amante ao menos amigo de sua esposa. Assim, porém, que a topava a sós, desviava-se, sem perceber que ella já de longe planeava o desvio. Tinha ella vida nocturna, que não era contemplativa nem ralada de solitaria tristesa. Os antigos conhecidos dos cafés blasonavam de se banquetearem em festins por noite alta com parceiras condignas, sob a presidencia bisarra e liberal de Innocencio José de Barros. Gervasio não foi dos ultimos avisados da prodiga libertinagem do filho. Repreendeu-o, sem azedume, receioso de que o filho lhe replicasse: «Deixasse-me estar solteiro». Era fraco e pouco menos de estupido, além de delinquente, Gervasio José de Barros. Delinquira insinuando a violencia no tom de auctoridade paternal e coadjuvando a deslealdade de Thomazia. Estava pagando.
E dobaram-se assim trezentos dias e noites, quasi um anno, sem que Thomazia podesse relembrar dia ou noute em que não chorasse.
Em janeiro de 1845 recebeu Gervasio a nova de ter fallecido no Pará seu cunhado Luiz de Pinhel. O informador acrescentava que o maximo da herança coubera aos filhos legitimados do rico fazendeiro; isso não impedira, porém, que o finado se lembrasse de sua irmã Thomazia, a quem deixára trinta contos de réis fortes. Pedia o noticiador habilitação e poderes para liquidar, se Gervasio não quizesse antes enviar directamente procurador que agenciasse a facilima cobrança.
—Deixe-me ir, meu pae! deixe-me ir a mim!—exclamou Innocencio.—Vou eu ao Pará, se me derem a procuração. Deixem-me ir, que me fazem um grande bem. Preciso sair do Porto por algum tempo. Ha muito que eu andava para pedir a meu pae que me deixasse ir ao Pará ver o tio...
Gervasio meditou, e disse:
—Pois prepara-te e vae... Queres levar tua mulher?
—Não, senhor—respondeu prompta e seccamente.—Se eu vivesse feliz, não buscaria modos de me apartar d’ella por algum tempo.