D. Thomazia de Barros foi ao escriptorio dizer ao marido que a velha parecia morta.
—Isso ha de ser fingido para não ir p’ró convento,—disse Gervasio—mas eu vou lá vêr...
Quando Gervasio chegou acima e se abeirou do catre de Custodia, já a velhinha tinha os olhos abertos, e circumvagava com elles espantados por toda a gente.
—Eu não te disse que era fingimento!—segredou Gervasio á esposa.—É matreira como o diabo a tal beata! Pois ha de ir...
N’este comenos, as palpebras de Custodia desceram outra vez; mas não chegaram a unir-se; porque as inferiores já tinham perdido a força vital da elevação. Estava morta: morrêra da sua fulminante agonia. Foi a saudade que lhe desfez o coração em que não tinha mais sangue que o das ultimas lagrimas choradas nos braços da sua ama. Não levou á presença de Deus culpa que a excluisse da misericordia do céu. Peccou por ignorancia e demasiada fé em S. Gonçalo e outros santos da mesma respeitabilidade. Peccou attribuindo á magia do sal virgem o exito de um casamento que se lhe figurou a felicidade da sua menina. Foi medianeira nos amores de João José emquanto acreditou que o homem trazia missão do alto quando solicitava a sua protecção. Odiou-o assim que lhe descobriu a protervia dos planos, e voltou os seus esconjuros a favor de Innocencio, por lhe parecer o melhor marido, á falta de outro eleito nos conclaves dos santos, martires, doutores e apostolos do seu conhecimento.
Descança, pois, em paz eterna na tua cova do cemiterio de S. Francisco, pobre Custodia da Porciuncula! Dorme até que a trombeta chame ás alvoradas do dia eterno a tua alma. E, se n’essa occasião este meu livro sobreviver, como espero, ao renovado cháos, pede ao teu anjo da guarda que junte este capitulo ao autos do teu processo, e eu terei tambem o duplo prazer de ter concorrido para a tua salvação, e de ser citado no valle de Josaphat.
CAPITULO XII
Argumento
Odio entranhado de D. Thomazia ao marido. Novas libertinagens de Innocencio. Segredos do thalamo contados com exemplar melindre e não vulgar habilidade. O virginal enthusiasmo das senhoras D. Sebastiana e Florencia. Os pagodes nocturnos do devasso. Morre Luiz de Pinhel, e Innocencio vae ao Pará. Admoestações epistolares do pae. O filho commove-se, mas Thomazia não n’o ajuda. De como a rethorica de Innocencio estava nos pés do mesmo. Vae-se o marido e ella passa soffrivelmente. Renascem as franciscanadas do Reimão e do theatro. Cyclo da prosperidade dramatica no Porto. A «Degolação dos Innocentes». Recorda-se a pá do carneiro com explicações supplementares.
Este sucesso enluctou o coração de todos. Thomazia, a esposa de Innocencio, cobrou odio entranhado ao marido: odio que superava o sentimento saudoso da morta. A Gervasio asseteavam-n’o remorsos, que o impediam de justificar a si mesmo o violento passo de despedir a pobresinha. As trez senhoras e os dois velhos lastimavam a defunta, e mais ainda o morrer-se tão atormentada e sem sacramentos. Innocencio andava a scismar e a querer divertir o animo das zargunchadas da consciencia.