No dia seguinte deu-me de jantar troixas de recheio, bifes de presunto de Melgaço e meio melão. O medico assistente, o João Ferreira, grande clinico, veio á tarde, e poz-se a farejar.—Que lhe cheirava a melão! se eu praticára a loucura de comer melão?!—A Gertrudes acudiu á minha perplexidade:—que fôra ella quem o comêra; que eu, coitadinho, estava a caldos e aza de franga, uma desgraça!

O doutor tomou-me o pulso, e fez um gesto de satisfação tranquillisadora:—que eu estava melhor quanto ao pulso, um pouco rapido, mas regular; auscultou-me a região precordial; já mal percebeu o ruido de folle; porém, continuava a fariscar o melão, desconfiado, chegando o seu descompassado nariz absorvente ao meu perfido halito, quando me auscultava as arterias carotidas.

Á noite, visitou-me outro medico, interessado na minha cura duvidosa, como amigo. Era Camara Sinval, lente da Escóla Medico-Cirurgica, um que prégava, não por hypocrisia, mas por paixão desvairada da Arte dos Vieira e Bourdaloue, sermões ultramontanos empavezados de sapiencias academicas com grandes empolas de latim pagão. Nunca me receitava. Para as insomnias mandava-me lêr philosophos e poetas epicos. Disse-me que, na sua clinica, empregava primeiro as epopeas desde a Iliada até á Henriqueida; e, em ultimo recurso, os systemas philosophicos desde Platão até Victor Cousin. Que tivera—contava—um doente de insomnia rebelde que resistira singularmente ao 1.º e parte do 2.º Canto dos Luziadas; mas, perdidas as esperanças de anesthesia, lhe lêra duas paginas de Kant, e o enfermo ficára sopitado n'um lethargo de Epimenides. Aconselhou-me a Homeopathia, medicina inoffensiva e de vantagem para fantasistas supersticiosos. Apenas lhe achava o defeito de ter entre os seus medicamentos uma Eufrazia e uma Ignacia; por que, se tivesse tambem uma Athanasia, seriam as trez Parcas com pseudonymos lethaes. Entretanto, achou-me espantosamente melhor. Não acreditava. Queria saber o que eu tinha tomado. Referi-lhe a verdade—as mãos de boi, os bifes de presunto, as troixas, o melão, a Providencia, sobre tudo a Providencia na pessoa de Gertrudes.

—É uma grande clinica a Gertrudes, disse elle; mas, se ella ámanhã lhe der lampreia, congro de caldeirada, timbal de camarões ou sallada de pepino, aconselho-lhe que se abstenha. A morte pela fome e a morte pelo enfartamento andam sempre de braço dado.

—Mas, se a natureza pede...—atalhei plagiando Gertrudes.

—Nada de pantheismo. A natureza compõe-se de dois elementos em proporções desiguaes: Deus como um, e Diabo como trez. Sou manicheu. Apenas concedo ao Bem a quarta parte de acção na regedoria do universo. O Diabo é quem faz os venenos dos vegetaes e dos mineraes, o frio que gela o sangue e o calor que abraza o cerebro, e a hydrophobia, e o raio e os terramotos, e a cholera asiatica, os miasmas homicidas dos pantanos e cavernas, e, sobre todos os flagellos, o homem que, fornecendo uma pequena parte de si, uma costella, produziu essa pessima coisa—a mulher. Não se fie na natureza, e muito menos na humana, por que essa é a mais corruptivel, e a mais fetida quando apodrece de todo. Por emquanto vá comendo as mãos de vacca; mas fique por ahi que não vá metter os pés pelas mãos.

Isto, com embrechados de latim de Horacio e da Biblia, abalou-me quanto á dieta.

*

Conversemos um pouco a respeito d'este medico, meu querido Thomaz Ribeiro. Sinval era geometricamente materialista, uma razão emancipada das intercadencias pathologicas da Fé. E fazia e prégava sermões nas egrejas catholicas. Como n'esta farça da vida é ridiculo o papel dos homens mais intelligentes! Era atheu; por que «se existisse Deus (dizia o precíto) duas das suas muitissimas perfeições seriam a Bondade e a Presciencia. Ora a maldade da creatura contradiz a bondade do creador; e a liberdade do homem, condemnado por causa d'ella, faz repugnancia á presciencia de Deus que teria creado o homem livre para o condemnar como insubordinado. Cacologia!—exclamava elle.

Mas que falta de logica! Se eu, n'um impeto de erudição entupidora, lhe citava o invicto argumento de Voltaire: «Se não existisse Deus, seria preciso invental-o», Sinval respondia-me com Diderot: C'est ce qu'on a fait. E quem ficava entupido, a final, era eu, por que as minhas lettras theologicas eram uma lastima. Havia de ser hoje!... Quanto á immortalidade da alma, dizia elle que havia de esclarecer-se depois da morte. Eu não lhe replicava, por tambem me parecer esse expediente o mais acertado.