—Mas desconfio que todas as minhas trez almas são mortaes—acrescentou elle.
—Trez?!
—São trez as almas que o divino Platão me concede no Timeu. Dá-me uma alma immortal na cabeça, e duas almas mortaes, uma no peito, e outra na barriga, separadas pelo diaphragma.
E, com effeito, verifiquei depois que Platão, considerado por alguns SS. PP. o precursor do christianismo, dava trez almas a cada pessoa; e, nas minhas especulações physiologicas, encontrei sugeitos com as trez almas, porém todas na barriga.
Lembram-me algumas definições d'este sensualista que sabia o seu Lucrecio de cór. Definia elle a virtude um producto artificial da politica e da vaidade. Aqui ha bastante sensatez; mas esta definição estava dada por Mandeville e impugnada por Berkeley, seculo e meio antes de Sinval nascer.
Definição do homem: «O homem é um organismo servido por bons e máos instinctos, alguns mais ferozes que os das alimarias, e nenhum tão intelligente como os do castor, das formigas e das abelhas; além d'isso, tem o dom da palavra, se lh'a ensinam, e vai muito além do papagaio em glotica. Ha uma só distincção que extrema o homem de todos os outros animaes...»
—A alma—interrompi eu perspicazmente.
—Não. A mentira. O homem é o unico animal que mente.
Definição da vida: «É uma alternativa de assimilação e desassimilação, de secreção e excreção. Pensamento é o resultado de combinações chimicas.»
—Então, vida organica e vida da consciencia é tudo chimica? E o Amor tambem?