—É, e da mais grosseira e trivial, por ser a unica exercitada na retorta do boticario da aldeia. O amor do homem primitivo e selvagem era uma paixão genesica, typica, servida em todo o reino animal por orgãos identicos, histiologicamente e physiologicamente semelhantes, e a final de contas uma funcção exosmosica de um lado e endosmosica do outro, percebe você? O amor do homem actual e culto é a mesma exuberancia bruta do organismo, modificado por alguns sonetos á fêmea; porém, no fundo da Natureza, está o inalteravel cliché.

E eu, melancolicamente, com gestos desolados:

—Com que então, endosmose o amor de Beatriz, de Laura e Leonor!... oh! oh!

E elle sorridente:

Sensiblerie piegas, amigo meu, as suas interjeições theatraes. Se Beatriz e as outras meninas, em vez de gerarem, por inspiração, sonetos e poemas, tivessem occasião de gerar meninos robustos—com o quê a litteratura de cabotagem teria perdido bastante—você mal poderia explicar-me transcendentalmente o phenomeno psychico do amor do Dante e dos outros e de Beatriz e das outras. Nas regiões selvaticas onde o sensualismo se retoiça desenfreadamente em promiscuidade de homens e mulheres, como classifica você esse estimulo bruto da carne? É talvez o classico Cupido que desembesta do arco flechas de amor aos coiros fuscos dos australezes, hein? Vá perguntar a um cafre kuza se elle sabe o que é amor, e pergunte á cafrina se ella entende o que seja pudor...

—Perdão! o pudor é universal, particularmente nas mulheres sem excepção das raças mais atrazadas. Haja vista ás tangas...

—Ora muito obrigado pelas suas tangas...—atalhou Sinval a impulsos de riso.—O celebre viajante Cook, na sua Primeira viagem, conta que em Taiti as mulheres, por um refinamento de educação esmerada, quando cumprimentam alguem, exhibem aquella metade do corpo menos usual nas exposições ao ar livre.

—Quão delicadas!

—E quão pudibundas!... Ha tribus selvagens, aliás muito castiças, em cuja linguagem falta a palavra amor, nem mesmo conhecem o beijo, essa mimosa delicia da epiderme que os homens aprenderam dos pombos e das rolas, por que a bêsta humana era incapaz de inventar o beijo.

D'uma vez, resentido com aquella litteratura de cabotagem em que elle mentalmente me classificava, e, de mais a mais, ferido nas minhas convicções metaphisicas, sahi á liça impavidamente, e discorri por largo, e bem, com muita felicidade, provando a existencia de Deus pelo facto da minha existencia, e a divina formação do mundo pelo facto da materia bruta não se poder espontaneamente formar a si, aliás o homem, materia menos bruta, faria alguma coisa com elementos novos. Innegavelmente despenhei-o; mas elle, como o Lucifer de Milton e do Braz Martins no Santo Antonio ainda regougava lá do fundo do abysmo: