—Você conhece a philosophia de Xenophanes?
Fiz um gesto de cabeça affirmativamente patarata, e elle proseguiu com um riso mordazmente suspeitoso de que eu não sabia nada de Xenophanes.
—Xenophanes—disse Sinval solemnisando o aspeito—aos noventa e dois annos de idade lia os seus poemas didaticos de moral santa, e pedia esmola aos ouvintes para sepultar os filhos. Morreu mais de centenario estudando sempre; e, pouco antes de expirar, fez esta profecia: «Ninguem soube, nem sabe, nem saberá nada respectivamente a Deus e á formação do mundo; e aquelle que mais egregiamente fallar d'essas coisas, será tão ignorante como os outros.» Ora você acaba de fallar egregiamente.
E retirou-se, provavelmente, confundido.
Nunca me esqueceu a opinião scientifica d'este medico a respeito do adulterio. Dizia elle com aprumo cathedratico e um sorriso rabelaiseano:—Esposa perfida e esposo trahido são effeitos necessarios e fataes de influencias celestes—coisas do Zodiaco. Uns homens, os seductores, nascem no Signo de Leão, e d'ahi vem chamarem-se leões; outros homens, os minotaurisados, nascem no signo de Capricornio, e d'ahi vem chamarem-se o que você sabe. É como eu penetro n'esta escura e hedionda voragem do adulterio, com o facho mathematico da Astronomia.
—Em que Signo nasceria eu?—murmurei meditabundo, ingenuamente.
E elle, com solemnidade comica:
—No Signo de Libra não seria por que o vejo bastante falho d'essa especie. Persuado-me que seria no de Caranguejo, (Cancer) quando leio na gazeta as suas theorias sociologicas; mas, á vista do candor donzel da sua lyra amorosa, bem póde ser que você nascesse no Signo de Virgem (Virgo). Fôsse como fôsse, faço votos amigos e sinceros por que não nascesse no de Capricornio, nem no de Touro (Taurus), nem no de Carneiro (Aries), por que todos tres possuem excrecencias symbolicas por onde se explica a profusão dos influenciados. Ha pontas de mais no Zodiaco, não acha?
—Sim, acho bastante sortido o Zodiaco. Parece a capital de um reino civilisado.
—Pois os legisladores não percebem d'isso nada. Estão ainda com o direito canonico da idade-média, permittindo que o trahido mate a adultera, e mandando em paz o marido adultero colhido em flagrante delicto. E note você—exclamava Sinval n'uma irritação de consciencia revoltada—note você que a legislação christianisada da idade-média, muito cruel para as mulheres e indulgentissima para os homens, era feita sob o influxo dos concilios! Realmente as mulheres devem grandes obsequios ao christianismo, e pódem fiar-se nos prégadores e nos moralistas rococos dos Semanarios religiosos que, uns por ignorancia e outros por obrigação do officio, a bigodeam com a sua emancipação! A certos respeitos, não ha paiz como este nosso para ossificações de umas certas ignorancias convencionaes. Conta-se que Jesus perdoára a uma adultera, por que entre os seus proprios discipulos e o mulherigo que a seguia escandalisado na piugada dos esbirros, não havia creatura limpa do mesmo peccado que lhe atirasse a primeira pedrada. Bem boa corja, cela va sans dire! Pois, quer seja facto, quer seja parabola, temos muito que deslindar entre a philosophia messianica de Christo e a religião dos christãos. O ideal humanissimamente caridoso de Jesus, quanto á fragilidade da mulher, não tem que vêr com o Matrimonio do jesuita Sanches e o Livro V das Ordenações. Logo que Jesus, immolado inutilmente á arraia-miuda da Galilêa, fechou os olhos, as adulteras judias e as conversas ao christianismo deturpado de Paulo, continuaram a ser apedrejadas; e, rodados 1849 annos de civilisação desde a tragedia do Golgotha até á comedia da Carta-Gaioso, certo artigo do Codigo Penal, que nos rege, permitte que o esposo trahido estrangule a adultera, sem lhe dar tempo a invocar o misericordioso perdão exemplificado por Christo. Pobres mulheres! que rica emancipação![2]