Se chegaste aqui sem fastio, és um anjo de paciencia e de problematico bom-gosto. Decerto uzurpei á patria uma hora das tuas contemplações sanitarias sobre a revisão da carta, que anda agora mui frequente na revista—o que me parece rasoavel, se ella, não obstante a bigoterie do Artigo 6.º, se tornou suspeita de virginismo insufficiente para reger um paiz pudibundo.
Seja como fôr, n'este opusculo esfervilham episodios desvairados que desatremam do assumpto e do titulo. São exuberancias que extravasam de uma grande medida cogulada de annos e de reminiscencias. O criticismo unhará o abuso do subjectivismo indisciplinado, a desorientação do abjectivo impessoal, da Arte Pura com maiusculas, finalmente—o romanêsco. Affoito-me, todavia, a esperar que os criticos práticos, tendo em vista os episodios extravagantes, afóra os gallicismos de que é capaz o seu aristocrata Tokay, usarão com o meu modesto «vinho do Porto» a sua costumada indulgencia generosa. E permitta a minha benigna estrella que os almotacés d'este folheto, quando hajam de aquecer o seu criterio no calorifico de alguma beberagem nervosa e suggestiva, prefiram o Johannisberg palaciano ao garoto Cartaxo do José dos Caracoes; por que, a final de contas, nem todos os criticos espiritados por vinhos canalhas tem o humour faiscante de Poe, de Hoffmann, de Marlowe, de Zacharias Werner e de Bocage—uma constellação de bebados immortalmente classicos.
Ainda se não disse tudo.
N'este pedaço de litteratura da decadencia, ou decahida de todo, observe a critica escorreita que ha dois projectos: um é patente, o outro é clandestino. O primeiro é—arrazar Inglaterra; e, com effeito, arraza-se. O projecto clandestino, um tanto arteiro, é obter pelo sophisma tortuoso da lettra redonda, typo-Elzevir, o que o mercieiro alcança com o correcto syllogismo dos azeites e dos farinhaceos. O Espiritual ousa correr o pário com o Comestivel: a meta é o habito de Christo. Que o mercieiro, melindrado na sua prosapia de anthropoide, não se agaste, se eu o lanço n'estas correrias de hippodromo. Não lhe conheço outros dons que o habilitem a entrar no sport.
Emfim, quando voltares a ministrar os negocios do reino, Thomaz Ribeiro, não me percas d'ôlho o meu habito de Christo, merecido pela façanha heroica e pouco trivial de arrazar Inglaterra. Bem vês que estas ambições aliás temerarias, confesso, não ultrapassam desmedidamente as balisas do meu merecimento. A almejada venera é a infima, penso eu, a mais piranga caracteristica ethnica da raça que domina esta nesga rasgada da Espanha, (que m'o releve d. Jayme)—umas noventa leguas, metade incultas; e, assim mesmo, na povoação d'essa metade, inçam e pompeiam, segundo conta o Almanach Commercial para 1884, cento e vinte dois condes, trezentos e quatro viscondes, e cento e noventa barões. Quanto a commendadores, quem contou as gotas do mediterraneo, as areias do Saharah e as estrellas da Via-Lactea? Ora, a respeito do habito de Christo, isso já agora, bem sabes, é uma coisa que se exporta para o estrangeiro como amostra da nossa unica industria; mas envia-se gratuitamente como os Grands Magasins du Printemps nos remettem de graça, francos de porte, os retalhinhos das suas fazendas.
Ah! que eu não morra nú d'esse habito! Concedam-me, na morte ao menos, essa insignia de christão em terra de moiros.
S. Miguel de Seide, abril, 20, 1884.
[1] Quando o barão de Forrester pereceu por desastre, um dos mais authorisados jornaes do paiz, escreveu sentimentalmente o seguinte: «... A morte desgraçada do snr. barão de Forrester a todos penalisava, pois o muito que aquelle illustrado cavalheiro se interessára sempre pela sorte do Douro, os bons serviços que lhe prestou com os seus escriptos... o tornaram geralmente estimado... Mostrou-se sempre muito dedicado a este paiz, e por muitas vezes associou o seu nome aos dos que mais trabalharam para os seus melhoramentos e progresso.»—O Commercio do Porto, de 14 de maio de 1861.
Um correspondente da Regoa para o mesmo jornal e no numero seguinte, escreveu: «É sincero o sentimento geral que produziu a noticia da morte do snr. Forrester, e são bem justas as lagrimas que se derramam por tão desastroso acontecimento. É uma divida sagrada que se paga á memoria do distincto cavalheiro que tanto se sacrificou por este paiz. Portugal e especialmente o Douro muito lhe devem... Apesar de estrangeiro era portuguez do coração por que poucos filhos d'esta patria mais fizeram por ella nem mais a amaram...»