(LUS. c. VI.)

Que litros de Porto envenenado se calculam efficazes para degenerar um bretão até á dyspepsia e ás agonias da morte?

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N'esta conjunctura, um possuidor de legitimo Douro convidou o intoxicado a beber o elixir fornecido por um commerciante britannico estabelecido no Porto. O negociante fornecedor era o Forrester que desappareceu d'este alfôbre de charlatães forasteiros, de um modo tragico, ha vinte e trez annos. Logo te contarei essa catastrophe, meu amigo.

A sensação intima que o hospede recebeu nas suas entranhas foi uma novidade, uma deleitação de refrigerio em todas as membranas desde o céo da bocca até ao cego e visinhança onde elle sentia os ardores da zona torrida. Emborrachou-se como era de esperar, e seria iniquidade censurar-lh'o; mas o seu cerebro de illuminado espelhava agora as visualidades ethereas, irisadas, do americano Poë. Nem já o ventre lhe rugia como se lá tivesse uma besta-fera embetesgada n'uma latrina, nem elle nauseado recorria ás titilações na glote para golphar o acetato de chumbo. O possuidor da garrafeira, para o convencer de que o salvára da morte propinada pelo vinho homicida do Porto, mostrou-lhe dois opusculos inglezes recentemente publicados. Um era de J. James Forrester, e intitulava-se A Word of truth Port wine. O outro, por Whittaker, em reforço ao de Forrester, chamava-se Strictures on a «Word of truth on Port wine». London, 1848.

Forrester, no seu folheto, desbaratava o valor do vinho do Porto, increpando os lavradores de não differençarem, no fabrico, as temperaturas humida, fria, secca e quente; que empregavam promiscuamente toda a casta de uva, adulterando-a com ingredientes adequados ao paladar inglez, mas corrosivos. Na operação do lagar, accusa o lavrador de retardar a fermentação, vasando em cada pipa de môsto entre dose e vinte e quatro gallões de agua-ardente. Que, passados dois mezes, a mixordia era córada com baga, mediante uns saccos de linhagem que espremiam sobre o vinho, e depois atiravam o residuo ao tunel. Em seguida, novo despejo de agua-ardente, e dois mezes de descanço. Esta beberagem enviada para o Porto era novamente «beneficiada» com o veneno alcoolico; e, nove mezes depois, ao sahir para Inglaterra, como golpe de misericordia, nova infusão. De modo que o vinho entrava no estomago inconsciente do Reino-Unido á razão de vinte e seis gallões de agua-ardente por pipa. Depois, descreve o que seja geropiga, e como ella entra n'estes horrendos mysterios da Brinvilliers. Esta geropiga, como logo direi, fermentou a bestialidade ingleza que passou victoriosamente na Europa em 1849.

Rematada a lista das falsificações, fraudes e ladroeiras dos lavradores e negociantes portuguezes, Forrester exclama: «Quem assim deteriora o vinho é, a meu vêr, mais criminoso que um ladrão vulgar»; e conclue o seu opusculo n'estes termos: «Os consummidores inglezes devem dar a Portugal uma lição prática, demonstrando que, se a esse paiz convém desfazer-se da sua agua-ardente, que não é nos vinhos do Porto que nos deve impingil-a; por que nós, em Inglaterra, podemos comprar baga e melaço por preços muito mais em conta do que Portugal nos incampa o seu licor de que esses ingredientes formam o principal.»

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Parecia natural e patriota coisa que os negociantes e agricultores de vinho accusassem este detrahidor á animadversão publica, e que a imprensa do baluarte da liberdade o cobrisse de injurias, e algum viticultor mal humorado de bengaladas. Não, meu querido Thomaz Ribeiro. A sua casa luxuosa na Ramada-Alta era o confluente dos próceres portuenses e da provincia vinicola. Titulares, desembargadores-conselheiros, ministros de estado honorarios, os maiores proprietarios do Douro, e poetas arcadicos de pacotilha, que faziam dithyrambos ao jantar:

Evohé.