Padre Lyêo!

Sabohé,

Grão Bassarêo!

Ainda se usavam, na bonacheira dos velhos, estas rancidas semsaborias remoçadas por uma copiosa tintura de bastardo.

Ali concorria o desembargador Fortunato Leite cheirando os vinhos que já não podia deglutir e arrotando pelo nariz sobre os calices. Ao pé d'elle estava o visconde de Veiros, o Mello das Aguas-ferreas, expondo a dois morgados de Riba-Douro a sua erudição em genealogia, uma sciencia em que se distinguem muitos parvos, se tem memoria. O ministro de estado honorario, João Elias, alambasava-se em pudding que comia com a faca. O Affonso Botelho, de Passos, d'uma gentilhommerie transmontana, paparrêta, rorejando as phrases e os circumstantes com uma salivação caudal expedida d'entre os dentes illegitimos, como do crivo de um borrifador. Elle chamára patife a Forrester em 1845, no Periodico dos Pobres, e acclamava-o então nos brindes o anjo tutelar do Douro que lhe comprava as colheitas a elle Affonso. Avultava o velho Manoel Browne, dominando a vozeria com as suas gargalhadas estridentes e honradas. O typico Gonçalo de Barros, a correcção no despejo, negociante de vinho, de casamentos proprios e alheios, de tudo que é negociavel, com mais farças e melodramas e tragedias na sua vida que o Archivo do extincto theatro do Salitre; insinuando-se com incomparaveis negaças de artista nos corações dos amigos e sahindo pelas algibeiras quando achava estas avenidas aéreas de mais e metalisadas de menos. Elle foi, não obstante, um tracista infausto, por haver nascido em um meio estreito de mais para o largo bracejar das suas faculdades mercantis. Seria o mais sagaz negociante encyclopedico da monarchia, se os seus parceiros em veniagas não fossem tambem os negociantes mais sagazes da mesma monarchia, todos conjurados em desabarem do seu legendario ponto d'alta honra a Praça do Porto. E a Praça sempre impavida em meio do fracassar das ruinas, como o homem justo de Horacio, metaphoricamente fallando—Impavidum, etc. Via-se o Eduardo Moser, então visconde embrionario, a esperteza do alho e a finura do coral feita homem; manancial de salvaterios commerciaes, agricolas, industriaes, esterilisados pela inveja e pela ignorancia dos seus auditorios; raro dom prelucido de profecia, mas condemnado, como Cassandra, a não ser acreditado. Seria capaz de inventar a Methaphysica commercial, levando á transcendencia o phenomeno do Cambio. Usa do telescopio de Herschell para vêr o Porto nas dimensões da Philadelfia. Ás vezes, cuida que vai scismando em emprezas arrojadas ao longo de Regent Street, e encontra-se na rua dos Caldeireiros entre uma loja de funis e uma tenda de tamancos. Vive miraculosamente no meio dos seus collegas da rua dos Inglezes e Cima do Muro como Daniel no fôjo dos leões. De resto, com uma estatura franzina, e menos de mediana, tem um temperamento de dynamite. Quando lhe é forçoso cascar um sôco em um homem alto (e eu já vi) cresce um covado pela medida velha. Tem a elasticidade do Relatorio e do boxing. Produz uns Relatorios colossaes que, se lhe puxassem tanto pelo corpo como pelo espirito, s. exc.ª seria o visconde mais corpulento da sua freguezia. Não obstante, e fallando por figura, elle hade ser sempre o gigante do Relatorio correcto, que fará alguma vez impacientar o ouvinte futilmente leviano, mas nunca fará gemer a Razão filha de Deus, nem a Grammatica filha do Lobato.

Confluia a todos os jantares assignalados o arcediago Cunha Reis, um velho palaciano de Braga, adiposo, apesar de ressicado interiormente por diversas ingratas materialistas que elle idolatrava com psycologismo incomprehendido, mas consentaneo á sua idade séria. Sentindo-se fatigado e algido da viagem por sobre o dezerto glacial da velhice, foi ao convento da Falperra, onde morava um egresso, fez confissão geral e deixou o coração penitente aos pés da Virgem. Depois, renunciando o coração, nenhum esteio amparador do gôsto de viver lhe ficou. Fechou-se no seu quarto, e, sósinho, morreu de uma congestão de saudade da sua juventude que fôra um manso idyllio de Gessner com ligeiras intermittencias febrís de Saint-Preux. Este adoravel cavalleiro-professo chamava-me filho; e, se ouvia fallar de amores, chorava, dissimulando as lagrimas com um sorriso ironico da sua fragilidade serôdia.

Era certo o João Nogueira Gandra que recitava sonetos de improviso com quinze dias de lima e de contagem pelos dedos, sob a torrente da inspiração. O visconde d'Azevedo lia poemas de sua lavra engenhosa em fórma graphica de copos e garrafas, cheias de versos de varios metros e de larachas honestas. O Lopes de Vasconcellos, um gordo, governador civil, ouvindo os poemas bacchicos, dava na barriga palmadas sonoras, intelligentes, rindo muito, e—que a poesia era aquillo, uma coisa com pilheria, porque versos de choradeira não os podia tragar,—affirmava, alludindo ao episodio da Ignez de Castro, do Camões, recitado por João Thomaz Quillinan com uma sentimentalidade plangente e languida, toda feita de moscatel de 1830. Em cavaqueira sábia e transcendente, o abbade de Macieira, pregador régio, um Massillon á altura do paiz, concordando com o theologista visconde de Azevedo, asseverava que Virgilio prophetisára o advento do divino Messias; e os dois, com as pitadas engatilhadas aos narizes rubros, recitavam alternadamente, com emphase:

VISCONDE

Ultima Cummœi venit jam carminis setas
Magnus ab integro sæclorum nascitur ordo.

ABBADE