Jam nova progenies cœlo dimititur alto
Tu modo nascenti puero...
O Quillinan, um atheu esclarecido, escutava-os; e, sublinhando o sorriso heretico, perguntava se o nascenti puero virgiliano não seria o filho de Asinio Pollião, herdeiro de Augusto, protector do poeta da Eneida. Os theologos affirmavam que não, sibilando o seu meio-grosso, reserva do mestre da fabrica.
Concorriam tambem os irmãos do D. Jeronymo bispo do Porto, dois velhos casquilhos, vegetalisados em dois pimentões ao toast, sempre á cata d'umas Suzanas pouco ariscas, Suzanas da barcaça do João Coelho a 8 vinténs por banho—e mordiscavam com as suas dentaduras de gutta-percha varios pomos sorvados e nada prohibidos. Fallavam de amores sardanapalescos com o medico Assis, um frascario de muita experiencia que lhes recommendava bifes na grelha e parcimonia, sopas de vinho com canella e alguma pudicicia. Eram a justificação de Lafontaine:
...dans les mouvements de leurs tendres ardeurs,
Les bêtes ne sont pas si bêtes que l'on pense.
Era tambem infallivel nos lautos banquetes do Forrester o Custodio Pinheiro, visconde de Villa Verde, a contar ao João Elias que a sua esposa, cosinhava uns ricos fósferinhos (fofinhos) para o chá; mas que elle já não podia cear senão chá preto com fateias. Defronte, o visconde de Alpendurada, presidente da camara, promettia a um jornalista, se os eleitores o conservassem á testa do municipio, dotar o Porto com o embellesamento das latrinas theodoras (inodoras). Um folhetinista d'aquelle tempo, o creador do espirito nas gazetas portuenses, Evaristo Basto, dizia-lhe que seria melhor, em vez de dotar o Porto com latrinas theodoras, o embellesasse antes com algumas donzellas do mesmo nome. Estes dois viscondes, aliás bons homens e creadores de linhagens de boa medrança, vão já tão longe que, quando me lembram, chego a confundil-os com os primordios das castas nobres, tal qual como se elles, senhores feudaes, tivessem ido á conquista do santo sepulchro com os Godofredos e os Tancredos.
Elles, emfim, riam-se uns dos outros, e o José Borges, hoje visconde do seu Castello, ria-se de todos com um sorriso solertemente cortezão.
O Forrester, muito fôfo e empantufado, com as suas fanfarronias poseuses, marrafa frizada e gravata branca assás conhecida, e mais os bofes anilados da camisa, nas illustrações da burguezia dos romances de Dickens, batia no peito enchumassado e na testa com as pontas dos dedos; e, com a cara açafroada em arreboes do Paraizo e das adegas do Pinhão, apontava, soluçante, para uma primorosa tela de Roquemont—o retrato de sua defunta esposa que o contemplava do céo em moldura de talha dourada; e elle amava tanto aquella vera effigie, testemunha de suas lagrimas, que a trocou, e mais outros bonecos de barro por vinhos de Antonio Bernardo Ferreira. Bem bom negocio para o inglez—está claro.
Ora estes commensaes de Forrester, quasi todos vinhateiros, ignoravam, excepto dous ou trez, a lingua ingleza e desconheciam portanto o descredito com que o amphitrião mareára os seus vinhos no mercado de Londres; mas o governo, que possuia idiomas como um Calepino, pegou de uma corôa de barão e pôl-a na cabeça de J. James—barão de Forrester. E, se não morre tão cedo, e faz nova edição das calumnias contra a mais rica e ameaçada industria portugueza—uma segunda edição peorada e mais incorrecta—o governo luso fazia-o visconde, não é verdade? A pergunta não é feita ao ministro do reino de 1883: é ao Thomaz Ribeiro que em 1849 entrava na adolescencia.[1]
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Para corroborar o Forrester e açular as iras contra o vinho do Porto, o outro pamphletista, Whittaker, invoca a opinião unanime dos medicos inglezes que reputam o vinho procedente de Portugal uma peste para o estomago e para o figado; por quanto o summo da uva é quasi uma idea abstracta na moxinifada de aguardente, baga, melaço e jeropiga. Elle não escreve sem desculpavel horror a palavra jeropiga.