Porquê? Vaes agora entrar no segredo da bestialidade ingleza, meu amigo.

Foi assim.

James Forrester, tão respeitador dos vinhos portuguezes como da nossa orthographia, tinha escripto «Jeropiga» com J. Parece que d'esta bagatella não devia surdir grande equivoco na percepção do pensamento; porém, succede que a palavra com G ou com J dá duas significações de coisas e serventias, e entradas e sahidas muito diversas. Whittaker, para saber radicalmente o que era Jeropiga, abriu o Diccionario portuguez de Constancio, e encontrou: jeropiga, Ajuda, clyster, bebida medicinal.

Tremulo de indignação e livido de nôjo, brada o inglez: «Esta ultima expressão (bebida medicinal) é o mesmo que mézinha; quanto ás duas primeiras (ajuda, clyster) são a mesma coisa, tem o mesmo sentido, e dispenso-me de as traduzir. Que bellas coisas a gente bebe!»

Ó Thomaz Ribeiro, quem não sentiria vontade de mandar o inglez beber outras?

Mas o peor da passagem foi que a droga do clyster diluida no vinho do Porto fez abalo intestinal no mercado de Londres. Raro seria o consummidor de vinhos portuguezes que não levasse as mãos convulsas á região hypogastrica, com ptyalismo e vomitos. O artigo foi logo trasladado a francez, em Bruxellas, na Revue Britannique ou choix d'articles traduits des meilleurs écrits périodiques de la Grande-Bretagne (1849). Em Paris foi commentada desabridamente, com chalaças, a porca e pelintra fraude lusitana em um artigo da Revue Œnologique. Portugal, á conta do execravel jota de Sir James Forrester, foi considerado um paiz de immunda selvageria que, ministrando clysteres pela bocca, tornava communs de duas entradas as suas mézinhas. Triste!

A honra e a limpeza de Portugal seriam desaffrontadas, se Forrester, Whittaker e os seus traductores ignaros procurassem Geropiga, com G, no Constancio ou no Moraes, jeropiga (esclarece o segundo), liquor feito de mosto de vinho, sobrecarregado de aguardente, que se usa no Douro para tempero de vinhos. E accrescenta: jeropiga, differe.

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O aleivoso clyster que, provavelmente, ainda hoje traz impressionados e receosos os espiritos e os baixos ventres dos nossos fieis alliados, conspurca bastante a memoria do barão de Forrester. Foi este inglez quem, empunhando a seringa da calumnia involuntaria por insufficiencia de orthographia, deu essa antecipada ajuda ao sinistro destino que já então vaticinava a catastrophe do paiz vinicola. Avoluma-se, porém, o delicto do barão quando é notorio que elle deixou correr o aleive bestial do seu patricio, e não acudiu a corrigir o erro e as sujas consequencias e derivações que Sir Whittaker tirou do drastico jota. Se elle fôsse um ignorante honesto, sahiria a protestar que a geropiga, não sendo clyster alimentario, nem medicamentoso, nem narcotico, nem laxante, nunca tentou usurpar as virtudes emolientes e diluentes das malvas, nem do laudano de Sydenham, e muito menos da jalapa e da mamona. Quanto ao mechanismo de ingerir a geropiga no corpo humano, deveria ter explicado que funcciona por meio de taça, calice, copo, garrafa, pichel, cabaça, cangirão, caneca, e tambem borracha, mas sem canudo recto ou curvo; e, para destruir pela raiz a calumnia, deveria jurar pela sua honra que nenhum portuguez, quando absorve geropiga, faz uso do Clyso-bomba de Darbo, ou do irrigador Eguisier; sendo certo que, na ingestão de tal liquido, se dá sempre a completa ausencia de canudos, bombas, torneiras, embolos e engrenagens que desandam e esguicham. A geropiga bebe-se, engole-se, escorrupicha-se; mas não se seringa jámais. Que o saiba a Inglaterra. A não ser na perfida Albion, em parte alguma do velho e novo mundo o vinho do Porto incutiu suspeitas de penetrar nas entranhas humanas por um impulso ascensional, com intenções dissolventes ou refrigerantes. Os nossos irmãos transatlanticos, afeiçoados patrioticamente ao vinho do Porto, jámais o infiltraram na sua economia intima sob a hypothese pharmaceutica de que elle contenha anda-açu, cayapó, tayuyá ou a purga de João Paes.

Nicolau Tolentino, no soneto realista dedicado á conjugicida Isabel Clesse,—soneto pouco digno de entrar no seio das familias, e quasi indecente como obra de mestre de Rhetorica—deixou, em dois versos, bem definido o methodo de matar clystermente: