—E as vossas tenções?
«Eram sentar elle praça, e, quando fosse official, pedir-me ao pai.
«Está bom... E porque me não fallaste d'esse teu namôro?... Diz, filha, tu guardavas de mim o segredo; é signal de que a tua consciencia não o approvava como digno de contar-se a um pai...{156}
—Foi porque algumas senhoras, que deram fé logo no principio, me disseram que eu não fazia bem em gostar de Vasco, porque elle não era rico, e eu só devia gostar de pessoas que tivessem um grande dote. Se não fosse isto, eu seria a primeira a dizer ao pai...
—Está bom, filha. Agora é necessario que tu escrevas, e lhe digas que teu pai deseja fallar com elle.
«O pai!?
—Sim, menina. Quero eu fallar-lhe, porque, se até aqui o estimava pelas suas qualidades, e por elle ser filho de quem é, mais o estimo hoje por elle ser amigo de minha filha. Ingrato e villão seria eu se lhe quizesse mal porque minha filha o impressionou, inspirando-lhe a resolução de seguir uma carreira até ganhar a subsistencia d'ella. Poucos ou nenhuns pais assim pensam, bem o sei; mas eu, que devo a Deus uma filha docil, não quero esquecer-me de que sou o seu primeiro amigo pelo coração, e o seu primeiro conselheiro pelo dever. Vasco, depois de ouvir-me, ha-de transigir com as tuas circumstancias e com as d'elle. Ficará amando-nos ambos, e ficaremos todos amigos, de modo que jámais elle possa queixar-se da ingratidão de uma filha grata e submissa a seu pai.
Leocadia beijou-lhe a mão, e retirou-se, obedecendo a um gesto do coronel. O velho militar ficou enxugando uma teimosa lagrima que lhe cahira sobre o bigode, no momento em que a filha, sahindo do quarto, desentalava a dôr oppressiva do seio por um ai.
Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso: «Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha. Leocadia.»
Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moço não podia imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraça. Faltava-lhe o animo, e o desembaraço para apresentar-se, á ventura, diante do pai de Leocadia.{157}