X.

E, quando o coronel parecia ter muito que lhe dizer, Vasco sahiu da sala, e desceu tão precipitadamente as escadas, que não voltou a cabeça para agradecer ao dono da casa a consideração de acompanhal-o fóra da sala.

No pateo encontrou o afflicto moço o aguadeiro que diariamente lhe levava as cartas de Leocadia. Estava o prestante gallego sentado no barril, examinando os pregos dos sapatos, e calculando talvez os emolumentos que cobrára da sua posição importantemente diplomatica entre dous corações rendidos.

Quando viu Vasco, calçou o collossal sapato, sacou dos abysmos interiores da jaqueta uma carta que entregou ao nosso amigo, atirou com o barril para o hombro, e não esperou resposta.

Vasco rompeu ainda a obreia para lêr a carta, mas susteve-o o receio de ser visto por algum familiar do coronel. Escondeu-a e desviou-se para um canto do pateo a limpar as lagrimas, que rebentavam, cada vez mais copiosas, debaixo da pressão do lenço.{164}

«Que dirá esta carta?»—perguntava elle ao seu coração—«Será o adeus de Leocadia?... Saberia ella para que me chamou a sua casa?...»

Tirou-a ainda outra vez do bolso, resolvido a lêl-a, quando entrou no pateo um criado, e em seguida um cavalleiro, esporeando o cavallo, com grande tropel. Era Francisco de Proença que chegava de Coimbra. Vasco não o vira nunca; mas pelo trajar de jaqueta de guizos, barrete á campina, e bota branca de canhão alto, conheceu o enteado do coronel, em que Leocadia lhe fallára algumas vezes, porque sua madrasta lhe estava sempre elogiando o talento, e encarecendo o grande morgadio.

Francisco de Proença viu um rapaz de casaca preta arrumado para um lado, e cortejou-o de passagem. O coronel descêra quasi até ao pateo para receber nos braços o enteado, e ainda viu sahir Vasco. Quiz perguntar ao recem-chegado se encontrára alli sósinho o cavalheiro da casaca preta; porém, lembrou-se de que a pergunta provocaria outras. A este tempo descia com grande alvoroço a mãi de Francisco, com os braços abertos; e o rapaz, depois de beijado e abraçado, deu o braço á mãi, que estava gorda de mais para enthusiasmo tão buliçoso.

D'ahi a pouco, lia Vasco, fechado no seu quarto, este bilhete:

«Em quanto fallas com meu pai, escrevo-te duas linhas. Já sabes que desgraça nos ameaça. Querem separar-nos, meu Vasco. Todas as nossas bellas esperanças não podemos deixar que nol-as matem assim. Respeito a vontade de meu pai; mas o juramento que fiz de amar-te eternamente é superior a tudo. Sou mais tua do que de mim propria, meu querido Vasco. Cuidei que poderia morrer sem desgostar meu pai; não posso; porque me lembro que te mato. Vê o que queres que eu faça. Não podemos esperar que o tempo destrua os planos de meu pai e minha madrasta, que só hontem me foram ditos. Hoje espera-se de Coimbra{165} o tal homem. Decide, meu amigo. Em ultimo recurso, eu fujo de casa para ti; e depois... o que Deus quizer. Não seremos tão infelizes como meu pai diz, não achas, Vasco? Diz-me que não; dá-me animo para lhe desobedecer. Não sei se te demorarás pouco tempo com meu pai: vou dizer ao gallego, que te espere com esta carta.