«Diga, diga, o que ia dizer.
—Eu... não perguntei a v. exc.ª o que sua filha tinha.
«Isso está claro. Quem é que se lembra de perguntar o que tem a mulher que se ama? O amor, meu amigo, recordo-me ainda do que elle é. Eu tambem amei uma mulher, casei, e, só depois de tres mezes de casado, é que me levantei uma bella manhã com a idéa de saber o que ella tinha. Soube que tinha umas leiras que renderiam, em anno de boa colheita, cincoenta mil reis, o maximo. Confessar-lhe-hei que não fiquei contente, por uma razão das mais racionaes que eu conheço. Minha mulher precisava vestir-se para apparecer n'um baile em Lisboa, e a minha gaveta estava ferida da esterilidade de Sara. Desde esse dia, meu caro snr. Vasco, quiz-me parecer que a minha situação de solteiro era melhor que a de casado. Entraram commigo receios de collocar minha mulher n'um posto inferior áquelle em que a encontrara na casa paterna, e as minhas doces chimeras de noivo fugiram como um bando de andorinhas quando as primeiras nortadas lhe embaraçam o vôo. Nunca minha mulher conheceu a tristeza que me descoroçoava por dentro, isso é verdade; mas o que lhe valeu para viver e morrer feliz foi eu ajuntar á delicadeza com que sempre a tractei, algumas dividas que ainda estou pagando hoje.
Morreu minha mulher... attenda agora, snr. Vasco: morreu minha mulher; e eu, com quarenta e cinco annos d'idade, ralado por desgostos de todos os generos e feitios, herdava da mãi de minha filha o maior de todos: essa criança sem mãi, filha d'um major quasi pobre. Educal-a, ainda eu poderia; mas legar-lhe um patrimonio, como é preciso que uma senhora o tenha, para poder escolher um marido, não podia. Um pai, que ambiciona avaramente para{162} seus filhos o bem-estar que elle não quer para si, é desculpavel, é victima do seu amor de pai. Sacrifiquei-me, snr. Vasco; e sabe como? Sacrifiquei-me como pai nenhum. Casei-me com uma mulher aborrecida, por que essa viuva, mais velha do que eu, tinha um filho, herdeiro de um grande casal, e além de todas as probabilidades favoraveis ao meu pensamento, estipulamos, eu e ella, a condição de que Leocadia seria mulher do meu enteado.»
Vasco ergueu-se com sobresalto; encostou-se ao espaldar d'uma cadeira, branco de neve, tremulo, que até os cabellos se lhe irriçavam, pasmando os olhos nos olhos do coronel, que se erguêra tambem.
«Então, snr. Vasco, isso que é?—disse Gervasio, tomando-lhe affectuosamente a mão—Sente-se. Eu sou seu amigo; tempo virá em que faça justiça ao pai da mulher que será sempre sua amiga. É preciso que sejamos tres no sacrificio.
—Qual sacrificio?—balbuciou Vasco.
«É preciso que o snr. Vasco, bem longe de contrariar os meus planos, seja o meu auxiliar para encaminharmos Leocadia ao destino que lhe tracei, convencendo-se um e outro de que serão infelizes, desobedecendo-me.
Vasco levou o lenço aos olhos. Era o chorar sem pejo dos dezoito annos. Vencendo os soluços, que forcejava por esconder no lenço, disse com intimativa:
—Eu obedeço, senhor... Creio que poderei obedecer.{163}