Vasco sorriu involuntariamente á visagem comica do coronel, de proposito arranjada para se ajustar á solemnidade com que sorvia, deliciando-se, um d'aquelles sadios e gordos cigarros da herva santa de 1828, que não era de certo a herva satanica do contracto de 1857, congresso de Borgias, que envenenam a gente, reservando só para elles as explendidas orgias dos outros...

«Está o meu caro snr. Vasco da Cunha morto por saber—disse Gervasio Leite—o que é que eu lhe quero. Lá vou já. Minha filha Leocadia...

Vasco fez-se vermelho, côr de rosa, amarello, branco de marmore, tudo em menos tempo do que o necessario para articular as cinco syllabas desse nome.

«Minha filha Leocadia—proseguiu o militar accendendo terceiro cigarro na ponta do segundo—tinha lá um segredo no coração, mas não segredo para o snr. Vasco; era-o só para mim, porque os pais parecem-se ás vezes muito com os maridos em serem os ultimos informados do que lhes toca pela roupa. Este ruim vêso da humanidade é que é muito mais antigo que o cigarro.

O orador riu-se com militar modestia do seu gracejo; Vasco, porém, não tinha recuperado ainda o animo frio para saborear o chiste do equivoco, ou parecêra-lhe grosseiro{160} de mais o confronto do segredo santo da filha com o perfido da adultera.

Gervasio Leite, satisfeito com um aceno affirmativo do interlocutor, continuou:

«Disseram-me que minha filha e o snr. Vasco se amavam. Não estranhei a cousa: achei-a mais humana e natural que o contrario disso, por duas razões respeitaveis e persuasivas ambas: Leocadia é rapariga, o senhor é rapaz, ambos sahidos do collegio, cegos ambos, conduzidos por outro cego, valha a verdade, que dizem ser cego o snr. Cupido, e eu quero que elle seja mais do que cego... em quanto a mim é surdo, por que não ouve razões, é cego por que não vê precipicios, é mudo por que só tem lingua para fallar a linguagem que não está nos diccionarios, nem póde applicar-se a estes objectos da vida real que se veem, e apalpam, e sentem, como, por exemplo, o vestir, o calçar, o ignobil cortejo da realesa despotica do estomago, e outras miserias adjunctas. Deixe-me cortar a direito, snr. Vasco, e dizer as cousas como eu sei. Isto resabe ao meu genero de estudos: formei-me em mathematica, e affiz-me a estudar a vida como se estuda uma raiz, problemas sobre problemas, e para todos o mesmo X, dinheiro, sempre dinheiro, com mil diabos!... desculpe-me esta rhetorica de tarimba.

Quando, pois, me disseram que minha filha amava o snr. Vasco, o neto do meu general na guerra peninsular, e o filho do meu camarada no quartel do general Beresford, tive sincera pena de ambos! Não entende, não. É necessario ter cabellos brancos, e mais brancos ainda os cabellos da alma, para conciliar duas idêas contrarias: ter compaixão de duas pessoas que se julgam felizes unindo-se. Ora eu me explico, e, quando não entender o meu vocabulario cá debaixo do mundo real, falle.

A minha casa é insignificantissima. Posso dizer que o rendimento d'ella, junto ao meu soldo, difficilmente tem{161} chegado para a educação de Leocadia. Minha filha é pobre.

—Oh senhor!—interrompeu Vasco agitadamente, e susteve-se.