As irmãs de hoje...—diz muito bem o meu amigo—arranjam-se ás dezesete; e a maior prova de ser o titulo já ridiculo é que a sociedade não as reputa incestuosas...
As não-comprehendidas contam em estylo lamuriante o vasio das suas almas a confidentes denominados irmãos, em momentos de expansiva familiaridade. O typo que sonharam, a imagem que as anceia, está fóra d'este mundo, respira o ar balsamico dos jardins celestiaes, é um anjo. Ora, acontece quasi sempre uma cousa muito racional: o irmão apresenta-se com procuração bastante do anjo, com poderes in-solidum. Passado algum tempo, esquece-se o constituinte, e fica o procurador escandalosamente encartado no usu-fructo do dominio e acção d'uma propriedade, que (aqui entre nós) os anjos não quereriam, nem eu, só pela decima, os cinco por cento, e os mais impostos annexos ao merinaque.
A gravidade d'estas reflexões veio para prevenir os leitores mal intencionados contra o abuso que por ahi se faz d'um parentesco de circumstancia. Irmão, mais que irmão, fui eu de Leocadia. Esse titulo, que ella me deu, conservo-o como um legitimo vinculo, mais que legitimo, talvez sanctificado pela angustia de ambos... e doer-me-hia que o sorriso parvo ou mau da suspeita correspondesse á melancolica saudade com que vou recordando palavras da minha pobre irmã.
Atem agora o fio partido do dialogo.
«É que eu cuidava, minha querida irmã—disse eu—que o amor na sua idade, e com a sua innocencia, ignorava certos desenlaces que elle tem humanos de mais, rasteiramente humanos...
—Que quer dizer?{168}
«Pensava eu que uma menina, na sua posição recatada, não seria capaz de conceber o pensamento da fuga da casa paterna! Vasco propozera-lhe alguma vez esse acto?
—Nunca, e eu mesma tive esta idéa quando me vi presa á vontade de meu pai, e fraca, miseravelmente fraca para resistir-lhe. Se bem me recordo, estava eu chorando no meu quarto, quando de repente me lembrei da fuga. Não senti aquecer-se-me o rosto de pêjo, porque me pareceu natural a acção de fugir á desgraça. O pesar da desobediencia, esse sim, mortificou-me; porém, entre o remorso e a paixão, a lucta decidiu-se pelo amor.
«E a idéa do seu descredito?
—Eu sabia lá então o que era descredito! O meu irmão não sabe o que se passa no coração puro. Terá experimentado muito; mas deixe-me dizer-lhe que as suas analyses tem sido feitas sobre corações muito experimentados. Uma mulher receia o descredito só depois que sabe a maneira como elle se alcança. Eu não sabia nada, meu amigo. Se me dissessem que eu corria risco de ser coberta de infamia por fugir para Vasco, rir-me-hia, ou pasmaria do absurdo. Se me dissessem que Vasco era capaz de abrir-me os olhos para eu vêr o abysmo em que me lançára cégamente, quem m'o dissesse tomal-o-hia por um demonio mau que zombava da minha ternura, e injuriava o meu Vasco. Uma rapariga innocente guarda tão santas no coração as idéas do bem, que não póde crêr-se victima jámais do homem a quem se entrega com amor, com mil vontades de o fazer feliz, com as veias abertas para lhe dar o seu sangue, contente da sua pureza para o galardoar com ella, anciosa por sacrificar-lhe a vida, e ficar ainda na obrigação de maiores sacrificios. O meu descredito, diz o senhor! As que fallam no seu descredito, se tem de rebater a instancia de sacrificios, essas são as que querem estar bem com a sociedade, conhecem-na, fazem parte d'ella, e lançaram já muitas favas pretas contra o{169} credito de algumas infelizes, cujo amor as levou á abnegação dos diplomas de virtude, que a sociedade dá ás que sabem embuçar-se no manto da hypocrisia, ou mascarar o escandalo de qualquer modo.