Eu estava de bocca aberta. Gostava tanto de ouvil-a, que não a interrompi. Discorreu meia hora boa neste assumpto, e disse maravilhas, que eu tive o descôco sandeu de alcunhar de romanticismo. Então não se dizia romanticismo, mas ás mulheres, que fallavam muito e bem, chamavam-lhes os alvares, pais dos que hoje vegetam, pispontadas, ou pronosticas.
Não obstante, que sentir tão fino era o desta senhora! Que verdades tão axiomaticas a dôr, a desgraça, a reclusão, o entranhar-se em si propria, lhe tinha ensinado! Se esta mulher traspassasse em lagrimas ao papel o livro intimo, que o dedo do infortunio lhe folheára no coração, qual das minhas leitoras não faria esse livro o seu director espiritual, nestes calamitosos tempos em que não basta a alma que Deus lhe deu para luctarem com a materia que as traz abarbadas, e fóra do seu espiritual elemento!
Cá estou outra vez encanhotado pela bruxaria das reflexões philosophicas! Resignem-se christãmente, leitores sensiveis. Não posso ser superior a este bacharellar de homem entendido na sciencia das almas dos outros, porque, lisamente o digo, da minha não entendo nada, e já agora morrerei com esta sphinge cá dentro não sei aonde.
Vinha eu, pois, contando que Vasco lêra a carta de Leocadia tantas vezes quantas o leitor quizer, que eu não sei quantas foram, nem elle. É certo que as primeiras leituras fêl-as com os olhos scintillantes de alegria; e as ultimas com uma fonte de lagrimas a cahir-lhe no papel.
Quer-se a razão da alegria e a das lagrimas. Pois sim.
Vasco dera-se como perdida a mulher, o amor, a vida da sua alma. Sahira perturbado da entrevista com o coronel.{170} De lá a sua casa lembrou-lhe o suicidio, o meio mais prompto de sacudir a farpa do coração. Convencido de que era irremediavel o perdêl-a, abriu a carta, leu-a, encontrou o remedio, alvoroçou-se, teve febre, delirou de felicidade, creu-se doudo: eis-aqui a alegria, a radiação da alma no semblante, o volver á existencia, o apegar-se á prancha de salvação segura, quando a garganta da morte estava aberta.
Depois, a razão, essa vibora idolatrada, cravou-lhe de subito o dente mortal no coração, o sangue refluiu-lhe todo alli, á purpura do jubilo succedeu o pallor do desalento, e o chammejar do enthusiasmo apagaram-no as lagrimas.
Que lhe disse, pois, a razão, essa divindade tão cantada, essa mestra da vida, essa filha do céo, que cahiu de lá á terra pela mesma razão que Lucifer cahiu? A razão disse-lhe que Leocadia, entregue á sua providencia, não teria um telhado que a cobrisse, porque em casa de Vasco dominava a razão da virtude que não acceitaria uma filha familia fugitiva, se ella não tinha um patrimonio, que absolvesse um filho segundo de tamanha immoralidade. Disse-lhe mais a razão que elle filho segundo, sem arte nem officio, nem ao menos poderia repartir com a pobre menina um prato de feijões adquiridos pelo seu trabalho. Disse-lhe mais a consoladora razão que Leocadia fugitiva seria perseguida por seu pai, conspurcada pela opinião publica, e fechada na cella d'um convento como leprosa de que todas fugiriam receosas de se contaminarem. Foi o que lhe disse a razão do mundo, formada pelo mundo, adaptada ás conveniencias vigentes da sociedade, austera para uns, tolerante para outros, draconiana para os desvalidos, venal para os poderosos.
Vasco ergueu-se do lethargo em que o deixára a briga das duas sensações contrarias.
Tomou a penna, e escreveu as seguintes linhas: