«Deus não quer a nossa união, Leocadia. Perdeu-se{171} tudo. Isto é tão atroz que parece impossivel. É verdade, Leocadia, é verdade que se abriu hoje a minha sepultura. Esperava morrer cêdo, mas tão depressa não queria. Vivia de esperanças, e agora é tudo negro diante de mim. Venha a morte, e seja já. Não sei o que te digo. Estou sem alma, nem forças. O que me dizes é impossivel. Eu não tenho um bocado de pão certo para cada dia. Contava com o meu trabalho no futuro; mas agora desfalleci de braço e de animo. Dous desgraçados é muito. Ninguem se compadeceria de nós. Perseguir-nos-hiam todos. Casa, Leocadia, casa com esse homem, mas espera alguns dias; eu quero morrer, e hei-de morrer antes. Faz-me este beneficio. Deixa-me dizer-te adeus, com a certeza de que me pódes chorar sósinha sem testemunhas, sem um... esposo que te diga: «escrava do meu ouro, porque choras?» Leocadia, eu previ sempre a desgraça, mas não assim. Isto é muito; e para estas agonias é que a morte sahiu das mãos de Deus. O Senhor te faça feliz, e a minha memoria te seja sempre saudosa e compassiva.
«Vasco.»
Acabára elle de fechar a carta, e sentiu um esvaimento de cabeça. Escondeu a face entre as mãos, porque o voltear dos objectos lhe causava a agonia do vomito. Um frouxo de tosse lhe sahiu do peito com dôr aguda e calafrios. Quiz respirar, e espirrou dos labios uma lufada de sangue que salpicou a carta. Lançou-se com impeto ao ar da janella, e viu na rua o aguadeiro que esperava a resposta. Desceu as escadas encostado ao corrimão, entregou a carta, quiz retroceder, e não pôde. Sentou-se n'um degrau, susteve o sangue no lenço, encostou a face á cantaria, e murmurou:
«Se Deus quizesse que fosse já?...»
—O que?!—perguntou uma voz perto d'elle.
Era a mãi, que descia para sahir.{172}
—O que, meu filho?!—repetiu ella.
«A morte.»
A sobresaltada senhora tomou-o nos braços, soltando vozes de afflicção. Vasco pediu-lhe silencio, subiu com a mãi esforçando-se por occultar o sangue, entraram ambos no quarto d'ella; e, duas horas depois, quem os espreitasse veria o filho abraçado aos joelhos da mãi, exclamando:
«Salvou-me!