Maria Maldonado.»

Foi então que Vasco se lançou aos pés de sua mãi, exclamando:

«Salvou-me!{182}

XII.

Leocadia narrou-me assim o proseguimento da sua historia:

«Quando vi uma letra desconhecida, em resposta ao meu bilhete, fiquei passada de mêdo, e parece que a luz dos olhos se me toldára. Custou-me a lêr o nome da assignatura, que maior susto me incutiu. «A mãi de Vasco roubou-me a minha carta» foi logo a idéa que me assaltou. Refiz-me de coragem para lêr uma reprehensão... e que espanto, que alegria a minha ao passo que devorava aquellas palavras queridas! As lagrimas cahiam no papel duas a duas. Eu estava louca de prazer. Ajoelhei, agradecendo ao céo a inspiração que mandára á mãi do meu Vasco. A fuga, protegida por uma senhora de tanta virtude, parecia-me um passo digno de louvor. Congratulei-me até da minha idéa, e suppuz que o espirito de minha mãi, a quem eu pedira remedio, m'a tivesse suggerido da sua bemaventurança.

«Eu não podia esconder o meu contentamento. Meu pai, que me deixára a chorar, voltando, reparou na repentina{183} mudança, porque os meus olhos inquietos e ardentes seguiam a bella imagem da vida, que voejava diante de mim, chamando-me para um futuro que os meus labios abençoavam com um sorriso.

«Minha madrasta, agourando o que mais lhe convinha desta alegria, pensava que duas ou tres palavras que seu filho me dirigira, ao jantar, operaram estranha mudança em mim.

«Francisco de Proença enganado por sua mãi, e mais ainda pelo seu orgulho, julgou que o milagre da mudança se devia a essas palavras aborrecidas que me dera. Como quizesse convencer-se e convencer sua mãi e convencer-me a mim do poder fascinante da sua lingua, fallou muito, penso que contou muitas anedoctas de estudantes de Coimbra, e com tal affectação o fazia que me causava tedio, posto que eu, apenas por cortezia, dissimulava escutal-o. Eu estava d'alma e coração embebecida na minha fuga, e não tirava os olhos da assustada agulha do relogio.

«Meu pai disse algumas vozes baixas a minha madrasta, e entre estas ouvi proferir a palavra «theatro.» Foi uma nuvem negra que escureceu toda a alegria da minha alma. Notou-se em mim a repentina transfiguração; e Francisco de Proença, que estava conversando commigo, perguntou-me se me sentia incommodada, chamando a attenção de meu pai. Expliquei o descóramento por uma vertigem costumada, e pedi licença para entrar no meu quarto.