«Eu não disse tal. Quiz dizer que o filho de v. exc.ª me prometteu desviar as suas attenções de minha filha, de modo que ella não conspirasse contra a minha vontade. Snr. Vasco, isto é exacto?
Vasco não respondeu: lançou a sua mãi um olhar de tortura intima, um olhar que pedia um pretexto para elle sahir d'alli. O que se passava no coração do infeliz moço não sei contal-o. Inferno?... inferno, sim, que nenhuma religião inventou ainda, devia de ser!
Se o examinassem de perto, vêr-lhe-hiam coberta a fronte d'um glacial suor. Todo elle tremia como sacudido pelos embates que o coração lhe dava no peito. Uma só idéa, synthese horrivel de todas, o predominava então: o desejo de morrer logo alli.
A infeliz mãi comprehendeu tudo, viu tudo, sentiu tudo!
Pediu licença ao coronel, ergueu-se, tomou a mão do filho, e disse-lhe:
—Vai para o teu quarto, Vasco. Eu não me demoro aqui... lá vou ter já.
Vasco sahiu, curvando ligeiramente a cabeça, quando passava diante do coronel.
«Pobre criança!...» disse comsigo o pai de Leocadia; e nestas palavras dissera tudo o que nós poderiamos dizer e sentir em largos commentarios.
Pobre criança, sim, que não soube erguer a fronte, embora marcada com o stygma da deslealdade, e dizer ao seu accusador e juiz: «mentes» Pobre criança, que não sahiu d'alli a procurar duas testemunhas, que, no dia seguinte, o vissem morrer ás mãos do coronel, ou cravar um florete no seio onde se embalara Leocadia! Pobre criança, que succumbiu, como succumbe a honra ferida pelo remorso,{196} á reprehensão do tyranno que lhe vem diante de sua mãi, lançar em rosto a ignominia da perfidia!
Ausente Vasco, D. Maria voltando-se com senhoril altivez para o coronel disse: